
Bill era uma pessoa tão modesta que quase não foi cientista para ser carpinteiro. No “Narrow roads of gene land” (1996, W.H. Freeman, Oxford), onde ele compila e comenta sua obra literária chega a falar disto. De fato, sua trajetória ganha vulto na bem menos gloriosa Michigan State University, e de sua boca, mesmo quando já no Departamento de Zoologia de Oxford, se ouvia frequentemente frases de auto-depreciação desse Professor Honorário, reconhecido como um dos maiores biólogos do Séc. XX.
Bill além de descrever as Regras de Hamilton, sobre aptidão abrangente, e resolver alguns dos enigmas darwinianos mais paradoxais, como a seleção de indivíduos não reprodutivos em uma colônia de insetos sociais, desenvolveu ao final de sua vida teorias de grande importância sobre evolução de sexo como resposta evolutiva à existência de doenças infecciosas e parasitárias. Tive a honra de ser seu orientado, na verdade, o último, e foi o legado de seus pensamentos que me lançaram definitivamente na Parasitologia e nos estudos da Ecologia de Doenças Humanas.
Ele se considerava um péssimo orientador, o que só seria se fosse tratado pelo aluno como se trata um orientador convencional – ela não dava direções para o seu artigo ou estatística, nem abordava questões sobre financiamento – ele sentava com você por uma noite inteira para discutir ideias, ver fotos da sua área de campo e propor hipóteses que eram de alguma relevância na interface ecologia-evolução. No resto, você tinha mesmo que se virar. Uma marca do Bill que se vê em muitos pesquisadores brasileiros de elevada qualidade teórica e de profundo conhecimento prático foi a baixa produtividade científica! Falo quanto a números claro! Seus poucos artigos mudaram o rumo da Biologia, e para isto, bastou aqueles que fez, e nem todos!
Certamente o perfil dele seria muito mal visto pela CAPES e pelo CNPq, como de fato foi pelo CNPq e pelo IBAMA, que o proibiram de vir coletar sangue de aves no Brasil para sua pesquisa sobre a evolução de sexo e doenças! Laudo de um supercompetente veterinário, e nada adiantou Márcio Aires, ainda vivo, correr a Brasília e tentar reverter o erro. Ao final da história, isto traçou outra rota para sua “vessel”, e ele foi estudar AIDS na África, onde contraiu a malária que o matou em 7 de março de 2000, aos 63 anos de idade apenas. Assim, podemos dizer que a inteligente e flexível burocracia científica brasileira matou, indiretamente, o maior Biólogo do Século XX.
A intenção aqui não é falar de da regra de Hamilton, aptidão abrangente, nem nada tão famoso, mas sim de suas idiossincrasias. Porém, o que fica claro é que uma sociedade científica madura como a Inglesa, sabe-se pontuar e valorizar um cientista brilhante e “outlier” na sua rota acadêmica! Sabe-se achar pesquisadores essenciais que não estão no corredor central do “oriente centenas e publique milhares”, e ainda assim ter esta gente separada do joio! Aqui, ainda tão verdes, temos agências rígidas e inflexíveis, quase Weberianas na forma de avaliar criatividade (como se fosse possível), e que põem no balaio do “baixo clero” qualquer um que não pontua de acordo com a regra X. Claramente sabemos que são muitos sujeitos brilhantes e nada preocupados com estas métricas que são descartados por esta pueril postura, infelizmente.
Publiquei um Obituário na Antenna, o Boletim da Royal Entomological Society, e em 2021, no vol. 45, um texto em comemoração de 20 anos desde sua morte.
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