Sobre o fim do mundo e quando ele aconteceu, OU, sobre as ilusões que continuam nos impondo.

Sérvio Pontes Ribeiro

(texto, pasmem, de outubro de 2016)

Costumo ler Nature na cantina do Instituto uma vez por semana ao menos, para não esquecer o que vim fazer aqui. Nesta, dei de cara com um artigo sobre “Capability” Brown, arquiteto de paisagem inglês, responsável por boa parte dos “landscape gardenings” do Sec. XVIII, e Frederick Olmsted, arquiteto criador do Central Park. Pensadores de grandes paisagens selvagens, mesmo que permeando as áreas urbanas, defensores do lúdico, do belo, e das grandes visadas da natureza como remédio para a alma, e bem-estar de toda a população. Olmsted em particular foi fundamental para a concepção de parques nacionais, que dos EUA se espalhou para o mundo inteiro.

Porém, mesmo os antigos modelos de preservação da paisagem, ou de modificação da mesma, visando o engrandecimento estético da vida por meio da natureza, refletiam uma forma de transformar o mundo com grande potencial de compatibilidade com o ideal da sustentabilidade que, em algum momento, nós perdemos.

De fato, estamos falando de Séculos XVIII e XIX, os últimos antes do fim do mundo. Claro, o mundo ocidental, os anteriores, no Oriente e em África, já haviam acabado um tanto antes, e crescíamos sobre os destroços, destruindo outros, como os das Américas e remoendo, entre um e outro, o fim dos mundos Mesopotâmio, Egípcio e Helênico, causados pela maior desertificação que o homem já fez na Terra. Mesmo que cruel, crescíamos um mundo que evoluiu muito rapidamente de 1700 até a virada para 1900. Se humanizou, achou sombra na ciência e no misticismo (Eliphas Levi era contemporâneo a Darwin). Pensava-se civilizatoriamente, nos EUA, inclusive, pensava-se para todos, em igualdade, fraternidade e liberdade. Mas deu errado, e acabou, um pouco antes da Primeira Guerra Mundial.

Já se notava no auge do triunfo, a decadência que aproximaria. Por exemplo, sintomático que nos relatos de 1854 para frente, Richard Burton (antropólogo, espião e geógrafo inglês, que descobriu as nascentes do Nilo, portanto, o Lago Vitória) já tendia à distorção do entendimento recente da biologia evolutiva para descrever, tendenciosamente, os povos africanos como uma raça degenerada. Abandonando o antropólogo sensível que ele foi, que amava as culturas africanas, e assumindo o militar, o primeiro homem ocidental que fez todo a peregrinação à Meca, ajudou a implantar a ideia distorcida do darwinismo social, e fortaleceu a última fase do Império Britânico, justificando sua opressiva presença no mundo. Começava o fim. Ao pararmos de perceber a beleza no diferente, começamos a morrer.

Depois disto vamos ruindo, lentamente, mas já após o fim do mundo. Aqui que quero chegar. Temos esta perversa ideia cristã de que há um fim súbito, que vai arrancar motoristas crentes de trás de seus carros velhos e despedaçados, que vão sair sem controle pelas ruas, batendo nas limusines dos pastores ímpios, ou nos carros dos ateus, católicos e macumbeiros, até tudo se desfazer entre o céu e o inferno. Não há isto, né? Já se estabeleceu o inferno na maioria das regiões habitadas pelo homem na Terra. Um resquício do que possa ser bom sobrou em regiões selvagens e em pouquíssimos jardins, perdidos, secretos, ou semi abandonados daqui e Dalí, mas como ilhas em meio as quais o barqueiro de Dante navega, sádico.

Porém, a boa nova é que o fim do mundo já aconteceu. Nunca conhecemos o mundo, nem nós nem nossos pais. Nossos avós sim, mas já há quatro gerações pós o fim. Isto é bom, porque não temos o que perder? Claro que não, é bom porque não temos que ter mais a ansiedade do colapso. Ele já ocorreu. O resto é farsa para alarmar políticos e a população para a necessidade de parar a queda. Se ruímos, e ainda estamos vivos, vamos parar de fingir que vivemos as últimas décadas de benesses tecnológicas e água pura (a água que você bebe não é pura, é suja como o ar que respira) e vamos começar a reconstruir.

Fundamental disto é que se tiver esta consciência, vai parar de achar normal casa sem reboco, nem esgoto, nem luz, pobre na rua, lixo, poluição, rios destruídos, ou que a humanidade inteira trabalha para o luxo de 1% das pessoas. Mundo? Onde um bom País africano, o Quênia, tem na sua capital, Nairóbi, 60% da população morando em uma só favela gigante, que nem é a maior do mundo? Preciso lembrar (e quem leu “A Trilogia Suja de Havana” de Pedro Gutiérrez sabe) que a miséria extrema se instalou em Cuba muito antes do planeta alcançar seis bilhões de pessoas, e que não foi por se alcançar uma capacidade suporte de população diferenciada por regiões do globo. Se instalou porque alguém controlando o mundo, em Washington, achou boa ideia meter um embargo econômico à ilha, levando milhares a uma vida de pobreza dor, e morte precoce. O que isso tem a ver? O fim do mundo levou ao sistema de controle extremo dos recursos restantes, e este controle não está sendo usado para mudar o cenário, mas para nutrir as ilhas perversas de prosperidade inserção no texto de janeiro de 2025 – vimos uma dessas ilhas queimar inteira essa semana).

O mundo acabou. Vai entender que é um processo em cadeia que já dura séculos, e que vai levar, um dia, à inviabilidade da nossa espécie. Vai entender que já é o pós-fim. Se aceitar que a miséria com a qual você acostumou é o preço de um fracasso já velho, mais velho que você, vai procurar outra forma de viver, não vai?


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