
Esse artigo do dia 15 de janeiro, na BBC, reflete um pouco a lacuna entre a biologia evolutiva e a infectologia. De fato, ao longo da pandemia, duas famílias de artigos científicos proliferaram nas revistas especializadas, mas conversando muito pouco entre eles: as de prospecção e mapeamento das variantes, sua incidência e espalhamento pelo mundo e os de modelagem matemática À lus de teorias evolutivas, prevendo padrões futuros a partir desses dados de monitoramento.
Estávamos no segundo grupo e claramente precisávamos dos dados dos virologistas e trabalhamos com diversos deles. No entanto, os modelos que foram gerados ao longo da pandemia raramente eram citados pelos infectologistas ou virologistas, como se fosse o suficiente contar infecções, mapear as rotas e garantir as descrições de novas variantes sendo encontrada. Não há dúvida que essas eram ações essenciais e urgentes, mas para onde seguiremos no entendimento dos fenômenos da pandemia. Ainda assim, essa lacuna de informação que foi se fechando gradualmente, mostrando que estava correta a premissa teórica evolutiva da perda de virulência. Ou seja, a medida que um novo patógeno se ajusta ao novo hospedeiro ao longo do tempo, desde o momento que o invadiu vindo de uma espécie animal, a tendência de elevada mortalidade, associada aos ajustes imunes inefetivos é selecionada negativamente (pela eliminação dos genótipos hospedeiros mais vulneráveis, e pela vantagem de transmissão das formas virais menos letais. Para comparação, usamos os dados de Manaus e simulamos como a COVID-19 evoluiria sem vacinação e comparamos com a modelagem dos parâmetros da Gripe Espanhola, que dizimou aquela cidade em 1918 (Fig. 1; publicado em An Acad Bras Cienc (2021) 93(Suppl. 3): e20210431 DOI 10.1590/0001-3765202120210431).

O processo com COVID-19 não foi linear, houve retornos de virulência com algumas variantes, mas ao fim dos termos, com ou sem vacinação, no processo de evolução de um vírus invasivo para uma espécie endêmica ao ser humano, o que se observou foi a total perda de virulência, ou seja, um vírus de fácil transmissão e com poucos sintomas. Estimamos que sem vacinação, o retorno à vida normal levaria mais de 4 anos, mas seguiria o mesmo padrão. Comparando com a gripe, H1N1, a suavização dos efeitos da COVD-19 foi ainda mais forte, e potencialmente isso se relaciona com a natureza dos coronavirus. Temos seis espécies que são endêmicas às populações humanas por séculos, e que nos causam os conhecidos resfriados, muito mais amenos que as gripes.
No entanto, o que me incomodou bem no processo, em especial na resposta aos referees dos 6 artigos que publicamos, foi a resistência da comunidade científica em lidar com um avanço de doença à luz de bases teóricas evolutivas. Em parte, o momento da biologia molecular é brilhante, desde que o Ilumina e o Torrent abriram a caixa de pandora do DNA ambiental, e das ômicas. Um universo de novas descobertas se descortinou na cara dos biólogos. Curiosamente, uma grande parte da comunidade científica se debruçou na nova “contagem de coisas”, como que num novo momento “lineuriano” de alta tecnologia, um retorno ao “a onde está” e “quantos são”, quando passamos a ver com normalidade se estranhar a formulação de hipóteses com bases teóricas sólidas.
Um ponto crucial para o futuro da Biologia, para mim, é reatar as suas bases teóricas a fim de construir um conhecimento molecular menos descritivo.
Seguem meus trabalhos com COVID-19, se quiserem reprints, só pedir nos comentários.
BARH, DEBMALYA; FIGUEIRA ABURJAILE, FLÁVIA; TAVARES, THAIS SILVA; SILVA, MIGUEL ETCHEVERRIA DA; BRETZ, GABRIEL PISSOLATI MATTOS; ROCHA, IGOR FERNANDO MARTINS; DEY, ANNESHA; SOUZA, RENAN PEDRA DE; GÓES-NETO, ARISTÓTELES; RIBEIRO, SÉRVIO PONTES; ALZAHRANI, KHALID J.; ALGHAMDI, AHMAD A.; ALZAHRANI, FUAD M.; HALAWANI, IBRAHIM FAISAL; TIWARI, SANDEEP; ALJABALI, ALAA A. A.; LUNDSTROM, KENNETH; AZEVEDO, VASCO; GANGULY, NIRMAL KUMAR. Indian food habit and food ingredients may have a role in lowering the severity and high death rate from COVID-19 in Indians. INDIAN JOURNAL OF MEDICAL RESEARCH. v.Publish Ahead of Print, p.1 – 71, 2023.
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RIBEIRO, SÉRVIO P.; BARH, DEBMALYA; ANDRADE, BRUNO SILVA; JOSÉ SANTANA SILVA, RANER; COSTA’REZENDE, DIOGO HENRIQUE; FONSECA, PAULA LUIZE CAMARGOS; TIWARI, SANDEEP; GIOVANETTI, MARTA; ALCANTARA, LUIZ CARLOS JUNIOR; AZEVEDO, VASCO ARISTON; GHOSH, PREETAM; DINIZ’FILHO, JOSÉ ALEXANDRE F.; LOYOLA, RAFAEL; DE ALMEIDA, MARIA FERNANDA BRITO; GÓES’NETO, ARISTÓTELES. Long-term unsustainable patterns of development rather than recent deforestation caused the emergence of Orthocoronavirinae species. ENVIRONMENTAL MICROBIOLOGY. v.24, p.4714 – 4724, 2022.
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RIBEIRO, SÉRVIO P.; REIS, ALEXANDRE B.; DÁTTILO, WESLEY; SILVA, ALCIDES V.C. DE CASTRO E; BARBOSA, EDUARDO AUGUSTO G.; COURA-VITAL, WENDEL; GÓES-NETO, ARISTÓTELES; AZEVEDO, VASCO A.C.; FERNANDES, Geraldo Wilson. From Spanish Flu to Syndemic COVID-19: long-standing sanitarian vulnerability of Manaus, warnings from the Brazilian rainforest gateway. ANAIS DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS. v.93, p.e20210431-1 – e20210431-14, 2021.
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