As causas e modos do mundo ocidental, suas origens científicas e os delírios de Trump ao abandonar a OMS.

“Westerners saw things their experience did not equip them to understand”

Alfred W. Crosby

Morei seis meses nos EUA e andando na rua, só se, acidentalmente, o dono de um estabelecimento estivesse lá, eu conversaria com um americano. Mesmo no NIH, americanos eram os aposentados que não queriam parar, a secretária mais capacitada, os gestores do prédio ou os grandes Diretores. Poucos nativos sujavam as mãos nos laboratórios. 

            Os EUA atuais me parecem funcionar enredado no mundo globalizado, de onde extrai a mão de obra altamente capacitada e, também, a menos capacitada. Ao ameaçar abandonar o mundo à sua sorte, e nele mandar seus imigrantes, Trump está atacando a essência funcional de seu país. Nesse modelo, o fato de ser os EUA o país que mais contribui para a OMS e outras agências internacionais é apenas um gesto de coerência e gestão de um mundo que cada vez mais serve a uma ou duas sedes. Ou seja, pessoas capazes (no sentido mais amplo dessa palavra, sem por mérito na parada) são, portanto, “assets”, e precisam ser bem geridos. Friamente, investir na saúde dos países periféricos é uma forma de proteger essas pessoas e de as cooptarem. Além, claro, de evitar que doenças infecciosas horríveis se tornem pandêmicas.

            Hoje em dia, mais que no meu tempo, e bem mais mesmo, as pessoas que melhor capacitamos nos escorrem pelos dedos para trabalhar nos Estados Unidos ou Europa. Sempre contamos com o bom senso e a responsabilidade desses seres com o Brasil que lhes financiou a carreira, para que resultem em algo que devolva desenvolvimento ao Brasil. Mais que isso, hoje é impossível considerar que possamos desenvolver cientificamente sem esse enredamento entre nós e a(s) sede(s). E é isso que somos, melhor aceitar e melhorar essa relação. 

            Assim pensávamos até o dia 20 de janeiro. A Nature chegou a propor em um editorial que Trump faria bem ao NIH (National Institute of Health), mas, se vai investir em saúde pública, isso tem pouco a ver com os laboratórios que trabalham com doenças de potencial pandêmico. Aquelas doenças ditas negligenciadas, que pouco afetam as pessoas mais ricas das sedes ou mesmo das grandes cidades do mundo em desenvolvimento. Aquelas parasitárias, que se espalham em favelas e outras comunidades que experimentam deficiências sanitárias. Essas doenças, são aquelas que ocupam a OMS e Institutos de pesquisa do primeiro mundo, inclusive o NIH. Receberão algo daqui para frente?

            No entanto, é importante notar que esse modelo de sociedade globalizada e com sedes é muito antigo. Mais que isso, e seu formato ocidental, praticado pelos EUA, tem quase mil anos, e é muito particular e distinto dos demais modelos civilizatórios conhecidos de toda a história da Humanidade. Alfred W. Crosby explora esses caminhos no livro “The Measure of Reality”, mostrando que foi possível à Europa pós medieval dominar outras civilizações mais avançadas pela combinação de dois fatores: 1) a sedimentação do conhecimento científico no Oriente e Oriente Médio, a qual fez com que seus cidadãos soubesse operar uma civilização complexa, mas não inová-la, tornando-os vulneráveis à invasores com qualquer outra tecnologia distinta de guerra; 2) o avanço mercante e exploratório europeu, que aconteceu desvinculado da elite clerical ou da nobreza. O comércio e as explorações dependiam profundamente de conhecimento, bem como as grandes construções religiosas. A coexistência dos cruzados com povos mais elaborados, sejam egípcios ou sarracenos, influenciou a necessidade de duas coisas essenciais para obras civilizatórias: contar e medir. Mais que isso, o comércio fomentou conhecimento científico entre pessoas comuns em uma escala tal que, a partir de 1300, a nobreza e as elites religiosas dependiam por completo dos saberes de pessoas comuns, que eles mesmos não tinham.

            Não que isso resultasse em um mundo perfeito, ao contrário. O sistema ocidental ainda operante até hoje, onde uma civilização se construiu sobre os saberes de suas camadas operativas e com uma elite dependente desse conhecimento, tem algo de muito particular e frágil: ao não ser fundamentada em tradições e mitos de valor, quem se torna o mito de valores é o próximo governante! Quando Aquenáton, pai de Tutancamôn resolveu reinar destruindo todas as tradições politeístas que o antecederam, iniciou a ruína do Egito. Bem, as tradições europeias foram assoladas por César e o cristianismo das fases finais do Império Romano. Ou nunca te pareceu curioso que o grande Deus do ocidente tenha vindo do Oriente Médio? O cristianismo ocidental não era o fim, mas talvez o iniciar de uma civilização sem tradições, mas rica em conhecimento e técnicas.

            Não ao acaso, nossa Academia flutua sem valores específicos ou norteadores, senão e ainda a grande máxima da criação da Royal Society em 1660: Nulis in Verba! Descobrir, testar e em nada crer! Mas, esse modelo tem seus créditos! O conhecimento tende a ser livre de vícios, ao contrário das tradições! Bem como o comércio tende a lucrar mais sem as guerras e assim, talvez o capitalismo tenha surgido como um caminho pacificador de extremistas a fim de todos poderem lucrar. Esse ainda é o modus operandi da ciência contemporânea (a menos que você seja fabricante de armas, mas isso, as duas Grandes Guerras mudaram mesmo, e não cabe discutir aqui).

            E, mais fascinante e interessante para esse perfil, quando a guerra se opõe ao comércio, as pestes se espalham. Não é curioso que a peste negra, a pior pandemia de toda história conhecida, tenha explodido no período de expansão inicial dos exploradores/navegantes e comerciantes ocidentais, em 1343? Primeiro vem a prosperidade, depois a ganância, então a destruição. As guerras em associação com variações climáticas devem ter causado as migrações de roedores do norte em direção à Rota da Seda, o que talvez sejam o gatilho mais provável dessa pandemia mortal. Mais recentemente, com exceção da COVID-19, as demais grandes pandemias dos Sec. XIX e XX sempre estiveram associadas às guerras e à movimentação de jovens soldados sob grande estresse para ambientes para os quais tinham pouca memória imunológica. 

            Para encurtar essa longa história e trazer ela para o abandono da OMS por Trump: o que causará um gesto como esse, somado à imigração forçada de pessoas deslocadas de volta à rincões de profunda pobreza mundo à fora? Um guerra econômica terá o impacto devastador na segurança global, no tocante à saúde pública, tanto quanto uma guerra convencional? Segurança, não me parece que vá causar!


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