HIV, MPOX, febre amarela, dengue, Ebola. Quantas outras doenças virais e zoonóticas transbordaram ao mundo vindo das florestas tropicais da África Subsaarianas? Essa é uma floresta extensa, que atravessa diversos países, e sendo a maior extensão contínua de floresta tropical do planeta, depois da Bacia Amazônica. Uma boa parte dessa floresta pertence hoje à República Democrática do Congo. Embora em grande parte preservada até 20 anos atrás, ou em franca recuperação em várias áreas, ainda assim é dessa parte do mundo que têm transbordado algumas das mais graves doenças infecciosas de potencial pandêmico. No caso do Congo, o gatilho desses transbordamentos, sempre foi guerra civil e, mais recentemente, os conflitos locais entorno do garimpo de metais raros para eletrônicos.
Veja o HIV. Surgido pela última vez entre humanos na década de 80 nas periferias da capital do país, Kinshasa, a partir de macacos caçados para alimentação. Macacos são comidos nessa parte do mundo desde sempre, mas nos anos 80, as florestas, embora bem preservadas, estavam tomadas de grupos de guerrilheiros. Assim, a maioria dos macacos caçados e vendidos, estariam, potencialmente, sob um maior estresse, e com maior carga viral.
O fato é que essa avaliação da condição de saúde do animal que causou o paciente zero da emergência de nova doença, é um olhar novo, não considerado antes do amadurecimento dos conceitos de One/Ecohealth. É recente a análise do estado de saúde das florestas e dos animais como fonte de novas doenças. Não apenas o desmatamento, mas em que estado de “saúde ecossistêmica” está uma região em desmatamento. Parece a mesma coisa, mas não é. E esse é o grande problema atual na recém nascida guerra civil da RD do Congo.
Fiz essa análise a partir de dados do Global Forest Watch (https://www.globalforestwatch.org/) que hoje em dia te permite avaliar o desmatamento e recuperação da cobertura florestal em diferentes intervalos de anos, do presente a 20 anos atrás. A figura abaixo é a região do conflito atual com os guerrilheiros do M23 (Movimento 23 de Março, que diz defender os direitos das minorias tutsi, vítimas de genocídio em Ruanda décadas atrás) + soldados de Ruanda, publicado pelo The Guardian.

A próxima Figura mostra a recuperação de florestas nessa região, de 20 anos atrás. As manchas azuis são áreas de floresta recuperada.

Já abaixo, você vai ver que essa floresta recuperada foi inteiramente desmatada nos últimos 10 anos. Essa crise é longa, quando os conflitos estouram, a população já está em situação de vulnerabilidade. O jornal da CNN mostrou esse desmatamento para venda de carvão, como única forma de subsistência dessa população.


Assim, quando olhamos para o cenário dessa parte do mundo agora, e pensamos em riscos de doenças emergentes, encontramos a tempestade perfeita: pessoas e animais sob estresse, subnutridos, e patógenos sendo deslocados de seus habitats naturais. Podemos pensar que o único fator que tornaria essa guerra menos propícia para um início de uma pandemia é que trata-se de um evento localizado, envolvendo pessoas com poucos recursos e, portanto, menos prováveis de viajar mundo afora. Ledo engano. Nessa semana outro artigo do The Guardian exibiu uma tropa de mercenários romenos capturados pelo M23. Sim, possivelmente estimulados pelas tropas russas do Grupo Wagner (ou sub-contratados por eles) que atuam na África por anos, esses caras foram contratados pelo governo do Congo como uma tropa de Elite. Além, de romenos, agora brasileiros, sim, nós, estamos indo para lá, mas como Boinas Azuis, da ONU. Ou seja, em breve, ali se tornará um dos lugares mais prováveis de surgimento de uma nova pandemia. Vamos torcer para que a OMS sem as verbas americanas possam continuar atentas!
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