Younger Dryas, eleitores mimados e a mudança climática: como fazer as pessoas aceitarem a realidade? Não sei.

O grande aquecimento que tivemos em 2024 foi fruto da interação entre o aumento das temperaturas anuais com um El Nino extremo (por sua vez, também extremo devido ao aquecimento). Após isso, os modelos climáticos todos previam um janeiro de 2025 mais ameno por causa da La Nina, que não aconteceu. Janeiro de 2025 foi de média global de 13,23oC, 1,75% acima do pré-industrial, portanto, o mais quente da história.

Ou seja, entramos ainda mais em um momento no qual regem efeitos aditivos imprevisíveis, típico do aquecimento acelerado das temperaturas. Os climatologistas estão buscando explicações para o inesperado janeiro 2025, e todas mais prováveis hipóteses namoram com eventos isolados de grande impacto global. Para entendermos de forma isenta essas imprevisibilidades, é preciso aceitar que há um ponto de fragilidade climática no qual eventos isolados podem ter consequências incríveis. Para eu discutir isso, vamos voltar alguns milênios e olhar para algo similar em outras escalas, embora comparáveis.

            Após o fim das Eras Glaciais, e entrando no Holoceno, o Planeta esquentava de forma relativamente rápida (mas bem menos rápida que estamos vivenciando hoje) e constante. No entanto, entre 12.900 e 11.700 anos atrás, houve um retrocesso nas temperaturas do hemisfério norte. Antes de seguir, preciso falar sobre o papel dessa estabilidade do clima que se instala amplamente (com oscilações claro, mas de pequena escala) a partir de 10.000 anos, sobre a humanidade. As estruturas civilizatórias como conhecemos só puderam evoluir no Holoceno, ou seja, a nossa ideia de civilização está intimamente associada à previsibilidade climática. Quando falamos em civilização, falamos em estruturas urbanas complexas, hierarquia social baseada em controle do conhecimento e técnicas, redes de comércio e trocas complexos, religiosidade estruturada, escrita e matemática (uma demanda inicial para organizar o comércio, “o que eu tenho e o que você tem”, que vira a semente para burocracias mais elaboradas).

            Esse retrocesso climático entre 12.900 e 11.700 é conhecido como Younger Dryas, devido ao aumento súbito de polens de uma pequena erva alpina, resistente ao frio, chamada dryas. Ainda se busca uma explicação plausível do porquê o hemisfério sul continuava em um caminho estável de gradual aumento de temperaturas enquanto o Norte retornava a um estado de frio intenso nos invernos. As hipóteses mais plausíveis passam por consequências pontuais do aquecimento gradual, com consequências globais.  

(imagem disponível em https://en.wikipedia.org/wiki/Younger_Dryas)

            Atente-se que estávamos saindo de um período glacial, o que implica que o volume de água congelada em lagos e glaciares eram gigantesco. Assim, uma das hipóteses é que esse aquecimento em associação com uma movimentação geológica específica, pode ter causado um fluxo enorme de águas geladas de alguns pontos particulares da América do Norte para o oceano. Especificamente, o derretimento do lago Agassiz pode ter resultado em um esfriamento súbito das águas oceânicas. Dois fatos apoiam essa possibilidade: 1) o fato de que os verões continuaram quentes, mostrando que o curso natural do aquecimento do Holoceno continuava, mas alguma evento único fez os invernos se tornarem extremamente severos; 2) o fato de que o hemisfério sul continuava aquecendo, mas passou por um período mais seco, em função do recongelamento de águas no Norte, diminuindo a umidade atmosférica planetária.

            Se idas e vindas em dinâmicas de flutuação climática planetária aconteceram ao longo do gradual aquecimento do Holoceno (estamos falando de dezenas de séculos de aquecimento lento, não décadas, como estamos vivenciando agora), imagina ao que poderemos estar nos expondo hoje?

            Do ponto de vista civilizatório, o Younger Dryas pode ter disparado a migração em larga escala de populações do Báltico em direção à Índia, impondo sobre as populações originais dessa região uma invasão dos povos que viríamos a reconhecer como indo-europeus, cá entre nós, não as melhores das pessoas. A cultura sobreposta dos balcãs emigrados com os indianos resultou na visão Vedanta de mundo, mais próxima à percepção de culpa e moral ocidental, se impondo à milenar percepção tântrica, originariamente evoluída entre os povos tradicionais da Índia. Para constar, os humanos chegaram à Índia a cerca de 35 mil anos atrás, vindos do Oriente Médio. Milênios depois, na Mesopotâmia, uma seca prolongada extinguiria a civilização que se formava entorno da primeira cidade-Estado do Globo, Uruk. O clima é, sempre foi, o algoz de civilizações.

            Onde isso tudo conversa com o bizarro título desse post? Bem, civilizações dão às pessoas a percepção errônea de que a Terra proverá infinitamente, e só o aproximar do colapso nos faz perceber esse engano. Sempre foi assim, em alguns casos há tempo de reversão, em outros, não.

            Hoje, a extrema-direita movida pelo seu poderio econômico, tem construído uma parede de mentiras que tentam negar essa aproximação do colapso e seus sinais. Lutar contra leis ambientalmente amigáveis e sustentáveis, é uma forma de negar os fatos, e tem um método: revolte o cidadão comum! Esse é o eleitor mimado que citei, que não consegue mais ler os fatos, interpretar as notícias e entender a origem dos eventos que afetam sua vida.

            Nas democracias ocidentais e latino-americanas (sim, não somos o Ocidente, lembrem-se disso) uma das principais consequências da imprevisibilidade climática é a inflação de alimentos. Essa tem sido usada para desestabilizar governos progressistas e ambientais, como se fossem deles a culpa pelos preços, que não é. Muito estranho espalhar desinformação para continuar causando as instabilidades que em algum momento poderá nos levar à conflitos mais extremos. A estupidez está estampada na cara das massas, e funcionando como arma de controle. Impressionante.


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