Pandemias são interrompidas pela Ciência, e só: temores em um mundo politicamente negacionista e a negligência com as doenças

(Texto de fevereiro de 2020, exatos 5 anos atrás, e antes do lockdown da COVID-19. Com comentários do presente em itálico, em um mundo em que a maior potência planetária ameaça ciência abertamente)

 

Essa figura? Nos alerta sobre a mensagem do filme “Os Segredos de Dumbledore”, e os riscos iminentes do fanatismo ideológico sobre todos em um mundo interligado e complexo. Ou, sobre o risco dos riscos não se desfazerem por gerações, retornando quando menos se espera.

Cientistas investigam a natureza. Desde a descrição de fenômenos, formas, quantidades e comportamentos, até a formulação de predições sobre acontecimentos futuros, baseados no entendimento presente e passado dos fenômenos naturais. Por exemplo, faz 20 anos que os cientistas alertam para as mudanças de regimes de chuvas, com cenários mais imprevisíveis e com eventos extremos mais frequentes, caso o aquecimento global criado pelo homem não fosse revertido. Não foi!!! E terça feira, 29 de janeiro de 2020, de forma imprevisível, as partes mais ricas da cidade de Belo Horizonte foram devastadas por uma chuva que superou os desastres das tempestades de 2017 (nessa parte do mundo, essas chuvas extremas deveriam se repetir naturalmente em intervalos de mais ou menos 20 anos, estando agora mais frequentes).

Previsão = acontecimento futuro. Dentre tantas coisas, para isso serve a ciência. A questão é que quando cientistas fazem essas previsões, não querem que elas se concretizem. O que queremos é alertar as sociedades de perigos iminentes, e causar mudanças em políticas públicas, e comportamentos sociais, de forma a evitar danos às pessoas, ao meio ambiente, às economias. No caso do aquecimento global, sempre que fenômenos climáticos extremos e imprevisíveis atingem os ricos, os fazem perceber que não há onde esconder, e mudanças políticas contra o aquecimento global começam a ser mais evidentes.

Doenças também são assim: há reação quando a forma de transmissão impede que se possa escapar delas por ter algum dinheiro. Portanto, vírus que se espalham rapidamente com grande risco de contaminação e morte, ou que minimamente causarão rupturas no sistema econômico global, fazem o mundo se mobilizar por soluções rápidas. No entanto, enquanto a grande parte dos governos (ou seus Ministérios da Saúde) e Instituições internacionais fundamentam suas decisões no entendimento preditivo da ciência, sempre há governos e setores da sociedade que culpabilizam arbitrariamente fenômenos que não são a causa da pandemia, quando não, culpabilizam as vítimas, em especial aquelas em pobreza crônica. Essas são as pessoas expostas a condições precárias e as primeiras infectadas, como aquelas que comem sopa de morcego em mercados sem regulação sanitária adequada, potencial origem da atual pandemia de coronavirus que avança.

Nesse momento, duas horas antes de eu postar esse texto, Trump ameaçou punir universidades que tomem posições pró-vacina, bem como punirá aquelas que tomaram as atitudes corretas contra a COVID-19.

Desde o início anos 2000, o mundo enfrentou duas outras pandemias de coronavirus de forma bem-sucedida, mas só porque foram seguidos protocolos científicos aceitos globalmente para conter a expansão desses vírus. Resumidamente, cientistas epidemiologistas usam uma constante chamada H0, que é o número de pessoas que uma pessoa contaminada pode infectar. Esta é uma medida classicamente ecológica, que avalia a velocidade de multiplicação de indivíduos, no caso, de vírus. O assustador é que essa é uma medida exponencial, que quer dizer que após um certo ponto, é impossível de ser freada.

O problema de certas viroses é que o H0 é muito alto, e as infecções ultrapassam tão rapidamente o número máximo de indivíduos que um ambiente pode sustentar (um vilarejo por exemplo), que a relação entre o hospedeiro e a doença entram em colapso. Sendo nós o “recurso” para o vírus, estamos falando de índices aterrorizantes de mortalidade e ruptura social. Usando a ciência, é fácil entender que se as pessoas sadias (= recurso) estiverem fora do alcance do vírus antes dele se espalhar exponencial, e descontroladamente, interrompemos esse ciclo mortal. Ciência, predição e ação! 

No entanto, em todos esses casos anteriores, as formas emergentes dos vírus não eram capazes de transmitir pelo ar e independente de partículas de saliva ou fluídos corporais. Agora, 2020, a nova pandemia de coronavirus avança, e os padrões sugerem a possibilidade de ser capaz de infectar pessoa a pessoa, e pelo ar! Um outro detalhe preocupa em 2020: a maior parte da população humana está nas mãos de governantes autoritários ou, quando democráticos, negacionistas da ciência.

Aqui, veja, estamos repetindo a realidade de 2020, com Trump de volta ao poder, e uma vírus pandêmico se espalhando rapidamente: o H5N1, e já causando rupturas significativas na produção aviária americana. Mesmo que esse vírus seja, até um certo ponto, melhor entendido por estar circulando faz décadas (que aumenta as chances de imunidade cruzada), não impede que ele consiga fazer um transbordamento respiratório para humanos de maneira mais efetiva, em especial se abandonarmos a vigilância! Podemos estar a poucas mutações à frente de uma nova pandemia, a qual poderá ser parada com esforços grandes de vigilância e controle, algo que depende de verbas para órgãos como CDC, NIH e USAID GLOBALMENTE (meu ponto atual, por que diabos dependemos tanto de um só país, até porque os cientistas nele são na sua maioria estrangeiros??). Se essas verbas forem para o lixo, junto com essas instituições, vai nossa esperança de intervir antes de um H0 absolutamente destrutivo. Também importante notar, que os vírus da HiNi são oriundos das grandes populações migratórias de aves da América do Norte. Esse é um fenômeno ecológico extraordinário, tantas espécies com gigantescas densidades e capacidades de deslocação continental. Para um HiNi, dependemos sim que os EUA façam o para casa. Lembrando a gripe espanhola de 1918, um H1N1, surgiu nos EUA, entre seus soldados se preparando para a I Guerra Mundial, não na Espanha!!!.

Dos dos sites de controle e monitoramento da gigantesca massa de aves migratórias sobre a América do Norte. esse mantido pelo US Fish & Wildlife Service, o qual, por sinal, recebeu nessa tarde de 15 de fevereiro de 2025, o aviso de um gigantesco corte de pessoal e verbas.

A tradição de escutar os cientistas tem variado de tempos em tempos, com consequências quase sempre devastadoras. Nos casos cotidianos de endemias, as consequências de não escutar a ciência (e de não agir coordenadamente via órgãos internacionais regulatórios – duas tendências irmãs: negar a ciência e negar a internacionalização do mundo) são na verdade um enorme crime social, pois quem paga os remédios e contas e enterram seus entes queridos são os que não tem como escapar, seja saindo das áreas de risco ou mesmo tendo condições econômicas de minimizar a exposição de seus familiares e de si próprio.

Voltando ao coronavirus e sua prevenção, qualquer governo no mundo que atuar desamparado de critérios científicos no seu combate, reeditará um termo moderno: o “racismo ambiental”, que define situações nas quais os custos de um impacto ambiental atingem mais os pobres que os ricos. Em outras palavras, um cenário epidemiológico desamparado de suporte científico e sem estar pautado em condutas internacionais validadas cientificamente, poderia vir a ser definido como “racismo sanitário”, no fundo, algo tão óbvio e antigo em países em desenvolvimento que não precisa nem explicar, nem tipificar.

O medo, portanto, não é só do vírus, mas de que em regiões chave do mundo, com largas rotas migratórias e comerciais, a ciência seja ignorada em função de critérios político-financeiros. Um governo responsável trata seu Ministério de Saúde como um segundo Ministério de Ciência e Tecnologia, capaz de dialogar e criar força de trabalho com as universidades e centros de pesquisa. Essa base institucional de diálogo e colaboração no controle epidemiológico é presente no Brasil há várias décadas. Olhando de maneira mais ampla, não valorizar as universidades e o ensino equivale a não planejar com base no investimento na ciência e monitoramento de ameaças potenciais ao cidadão  

Agora, olhando o mundo se sentir esfacelar à parte, porque um player se tornou importante demais e todos dependentes demais desse player, que desistiu de jogar, cria outros alertas. Como é possível que se permita esfacelar instituições da importância daquelas que ele tenta destruir? Bem, não se permite. O ponto positivo é que não há fanatismo generalizado nos Estados Unidos nesse momento, até onde sei. Há resistência de larga escala, uma sensação de medo, mas de forte discordância. Mas, por outro lado, onde mesmo que a concentração de renda tomou a dimensão que tomou, para que tão poucos possam ousar mudar a direção do mundo rumo ao caos do obscurantismo? Vamos pensar, e vamos pensar que essas preocupações estão nos rodando desde 2020? Na verdade, desde 2014, mais de 10 anos atrás. Por que ainda não nos livramos da escuridão, do fanatismo?


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