A beleza do só saber versus o quasi-cientista e seus perigos em um mundo mergulhado na desinformação, OU,

uma curta história sobre a reinvenção do charlatão em épocas de riqueza de conhecimento

“Come home”… a request made in a world full of Temple where everybody´s fate is decided for few, not in their home.

Meus pensamentos ao fim de “The Secrets of Dumbledore” que, coincidentemente (juro!!!!) estava passando de novo enquanto eu começava a escrever essa crônica, sobre as grandes confusões dos quase cientistas. Um filme quase juvenil, não tratasse da tão atual luta contra o pensamento excludente de caráter nazi-fascista, que retorna ao mundo. Um filme onde a vitória é da bondade, onde um dia histórico, portanto ordinário, acontece, e no qual pessoas ordinárias, diferentes, diversas, podem se encontrar e amar.

Começo pensando em tempos assim, onde o cidadão normal pode ter a calma de apenas viver, entendendo parte do mundo, uma pequena parte de como ele funciona. Quase sempre, esse cidadão normal, vai entender a parte e forma de funcionamento do mundo no qual ele atua. Das técnicas e processos ligados à sua escolha de profissão, além de um ou dois tópicos de seu interesse pessoal, que nunca vai desfiar como uma autoridade diante de outros. Afinal, é seu hobby e prazer pessoal, saber um pouco de carros sendo um advogado, ou de história sendo um engenheiro, ou de música, sendo um arquiteto.

            E essa é uma composição intelectual muito interessante, e dialoga com o lado positivo do acesso à informação. Com grandes amigos hoje de manhã, Chris, bióloga e chef, casada Junio, biólogo e cinéfilo, e também uma enciclopédia ambulante, perguntou-me dos alunos, se hoje em dia de fato liam. A resposta ela já sabia de seus e de minhas filhas. Mais do que leem, os que de fato buscam ler e saber, conseguem cobrir lacunas de informação que nossa geração do livro de papel nunca conseguiu! Hoje, ao ler um livro (leio muitos e todo dia, no papel, minhas filhas também), em especial para preencher meus hobbies e saberes secundários à biologia, ao deparar com uma informação que não conheço ou que acho estranho, uma rápida busca resolve essa lacuna. Antes, tal lacuna ficaria por meses ou para sempre, se precisasse procurar em outro livro, em especial na busca de conhecimentos que não compõe minha profissão.

            Ou seja, para quem aprecia, admira, ou se apaixona pelo saber, vivemos um mundo maravilhoso, extraordinário em possibilidades, que fica eclipsado pelos temores crescentes da desinformação causada pelo lixo, e pela dificuldade em filtrar os fatos dos delírios (mas não é tão difícil, há regras e caminhos relativamente seguros, desde a revisão coletiva do wikipedia aos canais institucionais, sejam da impressa formal, ou das universidades, museus etc).

            O problema é quando o cidadão escolhe usar seu saber secundário sem senso crítico, e trilhando os caminhos mais fáceis. Vou compartilhar minha profunda frustração de uma experiência recente com um profissional médico. Para lhe preservar a identidade, vou escamotear a especialidade, mas não seu delírio. E aqui, já deixo explícito minha crítica ao CFM, que desistiu de defender a ciência e os fatos, para politizar as ações dos médicos ao longa da pandemia, criando autorizações para ações não profissionais como a que eu vivi. Na minha leitura, isso é essencial, pois reflete a arrogância de uma classe (a qual muito respeito, até por ter sido meu pai médico) que não entendeu que são compostos de técnicos, que executam técnicas e pronto! Quando essa classe deparou com um vírus novo de escala pandêmica, o SARS-CoV-2, se viram tendo que se submeter a outros profissionais com formação de fato científica, como biólogos, bioinformatas, virologistas, muitos desses com graduação em outras áreas que não medicina! E não aceitaram, e começaram a delirar poder com base em quasi-ciência.

            Pois bem, discutindo uma questão médica com um especialista especial para mim (esse médico tem mestrado, usa avental com “Prof.” e não ”Dr.” Timbrado no bolso, busca testes inovadores), e discutindo desgastes relacionados ao estresse e reatividade, ouvi a palavra “colérico”. Aquilo evoluiu para a receita de um remédio que não cabia em sua especialidade, e a sugestão para ler sobre os 4 temperamentos! Quatro, todos comportamentos humanos reduzidos a 4?? E citou o autor: Ítalo Marsili!

            Esse Ítalo é um psiquiatra, que se tivéssemos um Conselho de Medicina sério, talvez já teria tido seu diploma cassado, o qual resolveu enriquecer como couch! Na verdade, ele é considerado um Marçal carioca! E fala de uma teoria falida, baseada em humores corporais e formas de reagir ao ambiente (4 temperamentos lembra algo? Água, fogo, terra e ar?), os tais quatro temperamentos que o tal médico se fundamentou para tentar me medicar!

            Aqui, transcendemos tudo de bom que descrevi no início dessa crônica! Como pode, com tanto acesso à informação, alguém escolher o caminho conveniente, cômodo, e que lhe empodera? Com 3 clicks (e uma pergunta à minha filha que faz psicologia) ficou claro que essa teoria foi por água abaixo antes do fim da segunda guerra mundial, e que o tal autor recomendado não é nada mais que um charlatão. Como um profissional opta por arriscar um mestrado, uma base teórica sólida, para defender um festivo desses?

            Enfim, vamos voltar à juventude que gosta de ler. Mais que a satisfação de saber e ter meios para saber, o acesso aos fatos, e aos não-fatos, se tornam rapidamente uma maneira de se defender dos charlatães que vão se espalhando pelo mundo. Entender o mundo, além de prazeroso, se tornará essencial para não virarmos massa de manobra da pseudo-ciência e do negacionismo!


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