A troca das Deidades de Arcadia pelos Santos, enquanto os Santos se criavam: a história da idolatria de homens e não da Terra como analogia para o momento terrível de hoje

Um alerta – esse texto critica pessoas em seus tempos e suas intenções, e não a fé de ninguém. É uma análise fria das analogias do sagrado feminino (abandonadas pelas três religiões monoteístas e patriarcais), que era uma forma de etnicamente criar proteção aos recursos naturais.

Pregador da salvação, da semelhança entre todas as pessoas, sem ninguém maior que outro…. a não ser, ele, o definidor dessas novas regras. Se há um homem-deus na Terra, e eu tenho sua procuração, somos todos iguais, mas eu falo por deus agora.

Essa é uma possível, e fria, interpretação sobre Paulo de Tarso, o homem que desenhou o cristianismo e é dito santo. Um homem que matou e perseguiu covardemente os cristãos, até se converter, e encher o mundo de esperança, falando de amor, e igualdade. Será? Todos eram iguais, mas os ídolos pagãos tinham que ser destruídos e esquecidos? Então, quem discordar dessa afirmação e quiser continuar idolatrando Artemis, ou Mitra, teriam que ser destruídos também? Ele pode não ter falado isso, mas a maneira como Paulo conduziu o cristianismo para fora do judaísmo (sim, cristianismo era só uma vertente do judaísmo, e para virar cristão, um pagão deveria se converter ao judaísmo primeiro, até Paulo destruir essa conexão) é, até hoje, o argumento para perseguir não cristãos, a pedra fundamental dessa e de outras religiões monoteístas: só nós estamos certos.

Essa visão, em especial no catolicismo, vêm mudando, em especial depois que o cristianismo latino-americano foi aceitando e incorporando práticas afro-brasileiras, acomodadas dentro de suas práticas, invés de serem completamente esquecidas. Das benzedeiras até as missas ecumênicas dentro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Pelourinho e em todo Brasil, (a do Pelourinho uma das mais belas missas que já assisti, com pessoas incorporadas entrando ao som das macumbas e atabaques). Essa incorporação, de início, também aconteceu na época de Paulo. Original da cidade de Tarso, uma cidade mitraica, ele ajudou a encaminhar a ideia de que as datas religiosas cristãs deveriam sobrepor às pagãs, em especial, as celebrações do Solstício de Inverno (Natal) e Equinócio da Primavera (páscoa). Todas essas, práticas mitraicas.

Mas, o ponto importante aqui é que o argumento de Paulo para a urgência em destruir tudo mais que não o cristianismo (não militarmente, mas na mente das pessoas, em especial dos grupos vulneráveis de pessoas), é que o mundo acabaria em breve, e só os convertidos se salvariam. Com um profundo diálogo com suas características mais sombrias e perversas, essa visão catastrófica tirava das pessoas muitas escolhas: é um vai ou racha, se der valor ao que ele estava falando. E ele viveu na estrada, sendo possivelmente uma pessoa carismática, parava na frente de cada pessoa e grupo, e lhes punha de uma forma profundamente contundente, a urgência de escolher um lado.

Acho que se leu atentamente o que escrevi, reconheceu aí um paralelo que vou arriscar fazer com os tempos modernos, onde não só um, mas milhares de Paulos viajam pelas redes com uma mensagem duvidosa e ameaçadora, pedindo das pessoas que assumam um lado. E, na verdade, por trás dessa mensagem, e do sucesso dessa mensagem nos primeiros séculos da Era Cristã, temos um resultado: a destruição histórica de uma das mais ricas e complexas culturas politeístas e vinculadas à Divindade Feminina: a da Grécia.

Transformada em mitologia, curiosamente, a Grécia e sua civilização viraram no nosso imaginário uma ocorrência atemporal e desvinculada ao surgimento do cristianismo. Como se toda uma civilização tivesse sido apenas literatura, e não foi. Acho profundamente curioso como o ocidente moderno separa por completo no tempo o surgimento e crescimento político do cristianismo (com a conversão de Constantino) e o fim de religiões tão fundamentais para o próprio pensamento ocidental. E como Deidades e a fé de um povo, viraram lendas e não…. a fé desse povo. Esse tempo, do surgimento do cristianismo e do individualismo grego, é o mesmo, o Helenismo.

Algo similar aconteceu com uma outra religião extremamente poderosa e complexa, o Zoroastrismo. Dominante nessa época, na qual o judaísmo era uma crença marginal de uma população irrelevante no Oriente Médio, o Zoroastrismo foi simplesmente varrida das aulas de religião, da cultura, do imaginário das pessoas.

Se atentar, o Ocidente tenta fazer você crer apenas nas três grandes monoteístas, como reais crenças. Mas há, vivas hoje, dezenas de outras crenças politeístas. Qual meu ponto? As religiões politeístas são profundamente respeitosas com a Terra, os recursos naturais, e também a diversidade cultural dos povos (e, em larga escala, na real liberdade individual das pessoas, um conceito bastante confuso hoje em dia). Basicamente, desde o tempo de Artemis e da Arcadia, se idolatra a vida, e não, o homem, e seu pai. Os adoradores de si mesmos e de seu suposto pai, são aqueles que criaram civilizações agressivas na exploração dos recursos naturais.  

De novo, temos aqui, um paralelo entre a fé de conversão, e a dinâmica dos influencers das redes, os quais são os novos pastores da fé cega em algo. No geral, por séculos, ambos são inimigos da lógica, do conhecimento, da ciência.  


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