
A primeira vez que vi isso foi na pandemia, mas vi outras vezes. Uma palestra aberta com uma imagem caricaturizada de uma pintura, na verdade a pintura do holandês Jan Saenredam, de 1604. Uma imagem gerada com toda a liberdade artística, que de fato sugere alguém manipulando as sombras que as pessoas prisioneiras no fundo da caverna se sentiam compelidas a entender como a vida. A pintura em questão sugere, pelo pitoresco, que há alguém manipulando a imagem, e que isso é a essência do Mito da Caverna de Platão. No entanto, no famoso diálogo de Platão com Glauco, o que importa é ver sombras e ouvir vozes, distante da realidade do mundo, fora da caverna. Não quem cria as sombras. Mas, empolgados com alguém manipular a realidade, ali estava a semente da conspiração, nascida da infantilidade de uma leitura superficial dessa Obra.
“Há uma elite que nos omite os fatos e nos guiam cegos”. A primeira vez que ouvi isso, era um deprimente infectologista, pró-cloroquina, usando essa distorção para justificar suas soluções sem base na ciência, para tentar voltar ao controle da narrativa de uma doença, para a qual lhe cabia só a humildade de calar e escutar a ciência. Ciência essa, por sinal, que não é a elite governista que guia ninguém cegamente! Agora, do que se trata esse Mito, afinal? Veja os itens desse, que é apenas o Livro 7 da Obra A República, de Platão.

Nessa linda versão da Atena Editora, comprada pelo meu pai em 20 de agosto de 1951, o livro 7 tem 40 páginas, e a caverna e seu dilema, estão reduzidos às 4 (QUATRO) primeiras páginas! O restante do diálogo fala da importância da real educação dos líderes de um país! Ou seja, as sombras da realidade não são uma imposição manipuladora das elites, mas um fato resultante da falta de uma educação profunda, esclarecedora, e fundamentada da maioria da população, e mesmo de suas elites!! Mais que isso, Platão usa esse Livro para criticar a dificuldade das pessoas de terem acesso a essa educação! Elaborando melhor, dada a realidade sobre as questões complexas relacionadas ao acesso à cultura e educação, Platão busca caminhos para que lideranças políticas não possam ser pessoas ignorantes, crentes das sombras! E é disso que se trata! Dos riscos de se ter lideranças não devidamente educadas, e não o oposto!
Dolorosamente, os conspiracionistas que lutam pela sua liberdade de acreditar no que quiserem, inclusive na Terra plana, hoje, são os eleitos ignorantes, adoradores das sombras, que reinam em um país imperialista que tem o poder de definir o destino da humanidade inteira.
Com Platão tendo torcicolo de tanto revirar no túmulo, agora temos algemados prisioneiros longe da luz do saber, guiando outros cegos adoradores de sombras. As consequências disso hoje, digo, hoje mesmo, que cada dia há um absurdo diferente, é o ataque ao sistema de museus do Smithsonian!

Passei seis meses bem perto de Washington DC, de outubro de 23 a março de 2024. E adorei a capital americana, por diversos motivos, a maioria deles ligados à história, paisagem e pequenos museus independentes, como Dumbarton Oaks, em Georgetown, e as fascinantes histórias das simetrias e astrologias urbanísticas da capital. Já os famosos museus do Smithsonian, com raras exceções, não me impressionaram! E nisso, está um grande elogio a essas instituições!

Eu fui moldado no British Museum, Natural History Museum of London (onde trabalhei), Tate Gallery. Esses são museus, como a maioria dos museus europeus, e também nossos museus barrocos tropicais, que não te explicam muito. A Roseta Stone é apresentada sem maiores explicações; a sala de Mamíferos é obviamente uma sala de mamíferos, visando mostrar por comparação as fantásticas escalas de tamanho. Mas está lá e só, e precisa saber alguma coisa para entender esses museus. Que são, portanto, sóbrios e ilustrativos da cultura pré-existente do visitante.
Os “Smithsonian” não! Eles beiram o pueril, misturam peças maravilhosas de museu com decorações cafonas, simplórias como uma festa de criança e, com isso, fascinam crianças! Admito, precisei descer do salto para entender o enorme valor da proposta dos museus deles, totalmente gratuitos, e próximos uns dos outros, para serem visitados por caminhada! Eles não só fascinam crianças, fascinam e educam adultos que não tem as bases esperada para a visitação de um museu europeu (paradoxalmente, inundados por turistas americanos todos os verões). Fato é, os “Smithsonian” são requintados na educação de seu público, e esse público, sinceramente, por todos os dias que lá estive, não são de turistas internacionais. São americanos do interior!
Se consegue distinguir um americano urbano, que vive em uma cidade administrativa como Washington DC, ou de Nova Iorque, do americano rural, suburbano, que é a maioria do povo daquele páis, sabe que a turma que divide os corredores dos museus com você não moram por ali!
E agora me pergunto, a que caverna se intenciona mergulhar essa população que, exemplarmente (sim, invejei não termos essa disposição de ir a museus aprender algo), vai buscar saberes em museus (que são sim, a essência do que há de melhor do povo americano), quando uma liderança cega resolve moldar o que esses museus podem ou não mostrar?

Voltando a Platão, os temas finais do Livro 7, que estavam na próxima página, dizem: “a educação dos magistrados só terminam aos 50 anos”; “as mulheres participam dessa educação”. Bem….
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