(Trecho traduzido e simplificado da Introdução da minha Tese de Doutorado na Parasitologia da UFMG, defendida em 2023: “Ecologia do Adoecimento Aplicada às Interações Parasitárias”)
https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/59604

Qual a origem das nossas doenças? Elas são de fato, nossas, ou um produto de cada ecossistema que a humanidade foi invadindo ao longo de sua expansão planetária? Essa é de fato, uma pergunta rara de se ouvir e talvez por isso soe estranha. Mas talvez o único motivo para estranheza seja que essa pergunta dialoga com áreas do conhecimento que, também estranhamente, não são próximas na prática, a evolução e a patologia. O próprio conceito de adoecer, que parece restrito ao campo médico, na verdade é um fenômeno interativo antagônico, no qual um organismo parasitário causa uma patogenicidade, ou seja, adoece seu hospedeiro. Portanto, esse é sim um assunto da ecologia evolutiva, que estuda as interações entre espécies e sua evolução.
Tendo esclarecido esse divórcio teórico indesejado, podemos vislumbrar com mais clareza a pergunta inicial e o título do artigo: o que são afinal as doenças das pessoas e por que só algumas causam surtos populacionais? Serão as nossas doenças as que trazemos conosco desde tempos primitivos, as que surgiram conosco em África? Ou seriam as que se adaptaram a nós depois de estarmos por centenas de gerações em um mesmo ambiente, na nossa rota migratória planetária? Podemos organizá-las, ecologicamente, em grupos funcionais ou guildas (guildas em ecologia é um conjunto de espécies que exercem funções similares, por exemplo, herbívoros são uma guilda, saprófagos, outra), com funções e Histórias de Vida similares? Caso as respostas acima sejam sim, então podemos pensar que o mundo globalizado, conectado, urbano e tecnológico, está aumentando as chances de adquirirmos novas doenças, ou mais doenças ao mesmo tempo? Aqui vamos explorar de onde elas vêm, as nossas doenças, e o que as fazem serem nossas.
A humanidade é afetada por dois grupos evolutivamente distintos de doenças: 1) infecções zoonóticas emergentes, que se espalham para humanos após o contato com um novo patógeno, originário de outra espécie animal; 2) doenças evoluídas com os humanos, que ressurgem em diferentes sociedades ao redor do mundo, devido à migração humana e outros processos de disseminação ecológica. Ambas podem resultar em surtos e epidemias de tempos em tempos. No entanto, distinguir entre esses grupos nem sempre é simples, devido à falta de dados sobre as origens das doenças ou sobre a dinâmica eco-epidemiológica de cada uma.
Novos dados podem inverter nossa percepção sobre uma certa doença. Por exemplo, peste, causada por Yersinia pestis, até recentemente era considerada uma doença zoonótica, que teria passado para as pessoas pelas pulgas associadas à roedores ao longo da rota da Seda. No entanto, um dado recente mostrou que essa bactéria estaria conosco muito antes da primeira pandemia de peste registrada (peste de Justiniano, 541-549 D.C.). Com base em métodos de sequenciamento de última geração aplicados ao DNA de dentes chineses antigos, foi possível datar essas bactérias como endêmicas aos humanos na Eurásia, 3.000 anos antes do primeiro registro histórico da doença da peste. Assim, hoje é mais provável que os roedores ao longo da Rota da Seda tenham sido primeiro infectados por nós, e então se tornado reservatórios e amplificadores dessa doença, junto com as suas pulgas.

O espalhamento da peste bubônica pela Europa
Porém, há algo que torna uma nova doença mais apta de nos invadir, como hospedeiro, e que une esses dois grupos em uma guilda funcional única: nossas doenças tendem a ser “doenças da aglomeração”. Nossos hábitos existenciais nos colocam como causadores de nichos ecológicos propícios para um grupo muito particular de viroses, bactérias e parasitos. O nicho de uma espécie não é algo externo, mas sim aquilo que a espécie demanda do ambiente para sobreviver. Um parasita precisa ser transmitido de um hospedeiro para o próximo, superar as barreiras imunes, multiplicar se alimentando de células do hospedeiro e, de preferência, não mata-lo. Diversos organismos infecciosos vão ser restritos a condições particulares que afetam, em especial, como eles se transmitem de um indivíduo para o outro. A maioria das nossas doenças precisam de pouca distância entre os hospedeiros, logo, gostam de grande adensamentos e elevada umidade relativa do ar. Ou seja, das cavernas às nossas casas lotadas de pessoas, criamos as necessidades desses patógenos! O trabalho clássico de Keesing e Ostfeld (Figura 1) explora como não só criamos tais condições em nossas sociedades, como também atraímos para nós espécies que são muito similares, bichos que aguentam sujeira, se embolam no mesmo canto, curtem alta umidade relativa do ar!

Os animais que aguentam nosso mundo são muito parecidos conosco, em hábitos, assim como são suas doenças!
Se voltarmos ao desastre que foi a pandemia de covid-19 em Manaus, veremos que um desses aspectos de grande importância para o SARS-CoV-2, e que foi negligenciado no começo, a elevada umidade relativa do ar, permitiu sua rápida disseminação naquela cidade, em especial nas zonas portuárias mais pobres. O mesmo fenômeno, de uma elevada mortalidade, acima da média nacional, foi causada por outra pandemia em Manaus, a Gripo Espanhola. Manaus chegou a 10% de mortalidade de sua população, enquanto o Brasil ficou abaixo de 2% naquela pandemia (veja o livro “A Bailarina da Morte: a grupe espanhola no Brasil”, de L.M. Schwarcz & H.M. Starling, 2020, Cia das Letras).

Manaus e suas fragilidades eco-epidemiológicas.
Embora um número bastante grande de patógenos possa ter evoluído para infectar e parasitar exclusivamente humanos, ou para sobreviver ao nosso redor em nossos ambientes antropomórficos, apenas algumas espécies foram capazes de produzir surtos de adoecimento substanciais. Novos patógenos podem seguir dois caminhos epidemiológicos prováveis: 1) ser excessivamente virulentos, reduzindo a transmissão e desaparecendo como um parasita preocupante em poucas gerações; 2) espalhar-se rapidamente e indetectável devido a uma grande quantidade de hospedeiros individuais tolerantes e, portanto, assintomáticos. Neste último caso, um patógeno parasitário causa um número substancial de infecções mortais em indivíduos mais vulneráveis, causando um surto detectável com consequências populacionais. Embora as doenças emergentes tendam a evoluir gradualmente em direção à diminuição da virulência, antes disso acontecer, elas tendem a resultar em eventos pandêmicos dramáticos, como o H1N1 em 1918 (Gripe Espanhola) ou agora, o SARS-CoV-2 em 2019.
No entanto, somente recentemente, devido ao sequenciamento de última geração e a todos os progressos em vigilância molecular e estudos filogenéticos, é possível separar adequadamente pandemias novas das recorrentes, sensu transbordamento zoonótico versus doenças de evolução humana. É crucial para a humanidade explorar melhor as causas da origem de cada surto, bem como a probabilidade de uma nova doença se tornar uma nova pandemia. É fundamental separar dois nichos ecológicos importantes para patógenos.
Primeiro, patógenos que causam infecções humanas silenciosas, que se transmitem constantemente aos humanos sem consequências detectáveis. Alguns desses patógenos podem não ser novos, mas provavelmente endêmicos em regiões onde as comunidades locais desenvolveram resistência a eles, mas repentinamente se espalham para fora e causam um surto mais grave. Assim, novos coronavirus que nos atacam muito agressivamente, já poderiam estar adaptados a nós por gerações em uma dada localidade, mas sua detecção só acontece fora dessa comunidade, onde começam a se manifestar como doenças com sintomas claros. Esta é uma situação que deve preocupar os governos de regiões sob gestão de ecoturismo, em especial cavernas, como no Vietnã, por exemplo.

Wuhan é uma cidade modelo, quanto à sustentabilidade. Porém, um ponto fraco, o comércio de animais vivos e sob intenso estresse, lhe tornou vulnerável e a fonte da pandemia de covid-19
Segundo, novas doenças reais que estão de fato entrando em contato com humanos pela primeira vez e rapidamente se tornando um problema de saúde pública, devido à capacidade invasiva efetiva dos mesmos. Curiosamente, das novas zoonoses detectadas em um levantamento em 2012, a maioria era feita de doenças emergentes identificadas nos 70 anos anteriores, mas consideradas raras, sem relevância populacional, sendo zoonoses endêmicas bem conhecidas. Um dos desafios na elaboração de um cenário preventivo global pode residir em nossa incapacidade de detectar precocemente a causa ecológica desencadeadora de uma pandemia que progride a partir do surgimento pontual de um patógeno que já coexiste conosco por décadas.
É um paradigma vigente que novas emergências de doenças relevantes estejam associadas à destruição ambiental, imprevisibilidade climática, aquecimento global, exposição humana a perturbações de habitat. Em relação a este último, há uma forte percepção de que a presença humana em ambientes sob transformação severa (frentes de desmatamento, por exemplo) pode nos expor a novas doenças emergentes. Um caso muito famoso é o transbordamento do vírus Nipah para suínos domésticos após os morcegos frugívoros buscarem refúgio em pomares, escapando do desmatamento (em expansão desde os anos 90 para produção de óleo de palma) no sudeste Asiático. Esse evento resultou em mais de 100 pessoas mortas e milhares de porcos sacrificados, em 1998. Da mesma forma, a caça de animais silvestres para consumo foi uma origem clara de várias doenças transmitidas por alimentos, entre elas, o HIV é o mais famoso.

A mais longa e dramática pandemia do Sec XX originou-se em uma tradição milenar: comer macacos. No entanto, nos anos 80, uma guerra civil tornava tudo e todos mais susceptíveis a um transbordamento viral, e digo isso dos primatas humanos e não humanos!
No entanto, esses cenários de destruição catastrófica não são necessariamente a única fonte de riscos. Por exemplo, nosso grupo demonstrou a existência de uma maior chance de encontrar um novo Orthocoronavirinae em ambientes modificados pelos homens a mais tempo. Por exemplo, as paisagens urbanas amplamente transformadas, como as encontradas na costa sudeste da China e na costa americana, seriam mais propícias para o surgimento de um novo coronavírus do que uma floresta pristina sendo desmatada no Sudeste Asiático. Nessas regiões, a extensão do ecossistema urbanizado é contínua por quilômetros e se relaciona a populações humanas altamente adensadas, emitindo elevadas taxas de CO2 e ricas. Serem ricos implica na promoção de consumismo desenfreado que pode, dentre outras coisas, impulsionar o tráfico de animais silvestres. Traduzindo, nossa longa e tóxica presença em uma paisagem foi a origem e causa da disseminação da pandemia de covid-19, não a sopa de morcego no sul da China!

InfoGrafico de nosso artigo na Environmental Microbiology, mostrando o risco aumentado de surgimento de novos coronavírus nas nossas paisagens sob distúrbios crônicos de longo prazo.
Portanto, é mais provável que novos coronavírus possam aparecer em nossos ecossistemas antropomórficos do que transbordar de animais em algum local remoto que estamos destruindo! Remanescentes de ecossistemas naturais nativos, se fortemente impactados, podem ser uma fonte de várias doenças que existem entre nós há décadas, perto de cidades e terras agrícolas centenárias. Então, considerando que há muito mais gente vivendo em áreas ocupadas e modificadas pela sociedade contemporânea por décadas do que abrindo fronteiras do desmatamento e destruição dos últimos ambientes selvagens do mundo, será que estamos preocupados com os lugares corretos, na busca por futuras pandemias?
Uma palavra de precaução: claro que as fronteiras do desmatamento nem deviam estar acontecendo, acarretam riscos à saúde pública que são substanciais, mas acarretam em perdas mais substanciais ainda, que antecedem ao adoecimento. As perdas da diversidade biológica que é a base da estrutura evolutiva do mundo ao qual nossa espécie pertence, resultam em perdas da estabilidade climática, da segurança hídrica e alimentar, dentre outras coisas. Evitar a destruição da biodiversidade deve anteceder as preocupações por novas doenças. Ainda assim, há riscos, porém, os maiores riscos estão onde já destruímos ou modificamos as paisagens irreversivelmente.
Voltando ao que o mundo moderno está fazendo com os riscos de novas epi/pandemias, vamos dar uma olhada nos eventos ao longo dos Séculos XIX, XX e XXI. Ao longo das 22 décadas entre 1800 a 2020, 48 doenças diferentes causaram algum tipo de surto disruptivo na humanidade, entre doenças humanas clássicas e doenças zoonóticas emergentes que recentemente se espalharam para nós. No século XIX, apenas 13 patógenos causaram surtos detectáveis, mas a maioria era recorrente, como tifo, peste, cólera, febre amarela e varíola. No século XX, 19 novas doenças emergentes foram adicionadas, e 16 novas apenas nas duas primeiras décadas do século XXI (8 novos patógenos/década contra 1,9 no século anterior). Isso é um aumento substancial na diversidade de doenças, embora possa haver alguma subestimação no número de patógenos do século XIX e início do século XX. Por exemplo, várias espécies diferentes de bactérias que podem causar disenteria e espécies de vírus que causam gripe são improváveis de serem devidamente identificadas naquele momento. Mesmo assim, e mais importante, não apenas o número de novas espécies de patógenos está aumentando, mas também o número de surtos por década.


Aumento de surtos detectáveis e emergência e re-emergência de doenças ao longo de 22 décadas.
Ou seja, há algo com o mundo moderno o tornando muito mais vulnerável a novas doenças e surtos pandêmicos que nunca, e tais determinantes, potencialmente, estão enraizados em quatro aspectos: 1) densidade demográfica e extrema urbanização; 2) degradação ambiental entorno de nossas cidades, com elevada poluição e contaminações ambientais; 3) conexões aérea e terrestre como nunca antes vistas, permitindo milhões de pessoas circularem ao longo de todo o Globo em poucas horas; 4) o estímulo ao ecoturismo, que leva milhões a serem expostos à ambientes antes pristinos e pouco visitados, amplificando as chances de novos e preocupantes transbordamentos. Permaneçamos vigilantes!
Artigos citados aqui:
RIBEIRO, SÉRVIO P.; BARH, DEBMALYA; ANDRADE, BRUNO SILVA; JOSÉ SANTANA SILVA, RANER; COSTA’REZENDE, DIOGO HENRIQUE; FONSECA, PAULA LUIZE CAMARGOS; TIWARI, SANDEEP; GIOVANETTI, MARTA; ALCANTARA, LUIZ CARLOS JUNIOR; AZEVEDO, VASCO ARISTON; GHOSH, PREETAM; DINIZ’FILHO, JOSÉ ALEXANDRE F.; LOYOLA, RAFAEL; DE ALMEIDA, MARIA FERNANDA BRITO; GÓES’NETO, ARISTÓTELES. Long-term unsustainable patterns of development rather than recent deforestation caused the emergence of Orthocoronavirinae species. ENVIRONMENTAL MICROBIOLOGY. v.24, p.4714 – 4724, 2022.
RIBEIRO, SÉRVIO P.; REIS, ALEXANDRE B.; DÁTTILO, WESLEY; SILVA, ALCIDES V.C. DE CASTRO E; BARBOSA, EDUARDO AUGUSTO G.; COURA-VITAL, WENDEL; GÓES-NETO, ARISTÓTELES; AZEVEDO, VASCO A.C.; FERNANDES, Geraldo Wilson. From Spanish Flu to Syndemic COVID-19: long-standing sanitarian vulnerability of Manaus, warnings from the Brazilian rainforest gateway. ANAIS DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS. v.93, p.e20210431-1 – e20210431-14, 2021.
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