
Todas as fotos desse post são parte dos artigos aqui reproduzidos
Um artigo fantástico na BBC fala da predominância de árvores de Castanea, uma Fagaceae conhecida como “chestnut” ou, por nós, castanha portuguesa, em paisagens europeias pós Império Romano. Uma razão para isso, os romanos precisavam mover uma estrutura civilizatória para o norte medieval e atrasado, o qual dominou. E para isso, precisavam de madeira! A castanha, comida de gente pobre que os coletava pelos caminhos, não foi o motivador da plantação dessa espécie. O que fez dessa uma árvore de interesse foi a capacidade de após corte produzir um grande número de rebrotos que davam troncos lineares de crescimento rápido, assim multiplicando a cada corte a quantidade de madeira gerada para construção.
Tal informação joga um pouco de luz sobre uma visão ilusória e romântica sobre uma Europa florestal. Eu morei em uma Inglaterra que tinha 1% de florestas, mas que, antes da construção em massa de navios para colonização do mundo, era o oposto, 99% de floresta. Mas, que floresta é de fato essa que conhecemos, e que destruímos?


A Europa florestal é a que inspirou Ítalo Calvino em seu conto mais extraordinário, “O Barão das Árvores”. Um jovem Barão revoltado, resolve tirar os pés do chão aos 17 anos, e nunca mais voltou ao solo. Uma descrição fabulosa e em parte substanciada, de uma Europa tão arbórea que se passaria de um país ao outro pelas copas. Onde tanta atividade social aconteceria em meio aos “woods” que se teria uma vida política de relevância sem dos galhos descer! Uma Europa certamente mais amena climaticamente que a de hoje, mas nem por isso, selvagem. Uma visão comum no nosso imaginário sobre Robin Hood também dialoga com essa realidade das woods.

A transformação humana das paisagens em “mais florestais” é um caminho oposto ao circunscrito por Alfred Crosby, em seu “Ecological Imperialism”, ou por um dos pais da Sociobiologia, Edward O. Wilson, no seu “Consilience”. O primeiro clama que o estilo de vida europeu dominou o mundo por implantar um sistema gradual de desmatamento e espalhamento de rebanho bovino. O gado, em especial leiteiro, trazia aos europeus vantagens adaptativas por uma mutação genética bem comum entre brancos: a capacidade de manter a lactase ativa na vida adulta, tornando o leite um alimento vital e seguro para não infantes. Já Wilson nos remonta aos tempos primitivos da origem da Humanidade, e clama, de uma forma estranha e pseudo-científica, uma garantia do consciente coletivo entorno da visão da savana com corpos d´água como o lugar perfeito para humanos, a paisagem do “cradle of (our) life”.
Ambos são mais escritores de livros sobre ciência que cientistas (embora Wilson seja um taxonomista de formigas muito importante, o escritor venceu o biólogo em algum momento). Assim, e sem evidências sólidas, enviesaram uma visão parcial e favorável a um modelo de existência e desenvolvimento em conflito direto com florestas. Mesmo que seja claro que florestas não sejam o mais óbvio de nossos habitats, há algo faltando aqui. Em favor da ideia de não sermos homens de florestas, uma das evidências mais fortes vem de Tallavaara e colaboradores, que publicaram na PNAS em 2017 (Productivity, biodiversity, and pathogens influence the global hunter-gatherer population density, vol 115), um artigo intrigante sobre como a produtividade primária (fotossíntese e acúmulo de biomassa, basicamente) dos ecossistemas onde vivem humanos caçadores-coletores, é determinante do tamanho das populações. Entretanto, esse efeito positivo vai até um dado limiar. Acima desse limiar, os ecossistemas mais produtivos, invés de aumentarem o tamanho das populações humanas, aumentavam a quantidade e importância de patógenos, criando um crescente cenário de estresse patogênico, que passa a regular o tamanho dos grupos, que nunca alcançam o limite máximo das capacidades humanas de usufruírem dos seus ambientes. Que ambientes estão acima de tais limiares? Florestas tropicais super úmidas, potencialmente favoráveis ao desenvolvimento de civilizações, não fosse a incrível grande quantidade de patógenos nesses ecossistemas super úmidos. Talvez, essa sim, uma evidência de nossa preferência por savanas, cavernas e ambientes abertos, semi-áridos e menos florestais.

Mesmo que sim, ok, ambientes super úmidos não sejam nossos mais seguros lugares no mundo, morar perto deles, pode ser uma boa ideia! Surgiriam daí o hábito Tupi-Guarani de limpar todo o terreno entorno das suas habitações e construções civilizatórias, deixando a floresta em pé, mas a alguns metros de distância? Mesmo assim, a aldeia despelada é (ou foi) um ponto em meio a uma floresta vasta e com grandes recursos que, exatamente como na Europa, foi em muito explorada e modificada pela presença humana. E, também como em Europa, uma castanha moldou a floresta. A Amazônia é tomada de castanhais produzidos pelos povos originais, criando vastas extensões de florestas simplificadas para favorecer essa espécie. Há, inclusive, uma diversidade genética populacional mais baixa que esperado para um ecossistema tropical, por serem as sementes maiores e mais nutritivas, usadas de moeda ao longo do rio Amazonas, homogeneizando a espécie em toda bacia.

Não apenas isso, em grande parte da América do Sul essas civilizações transformaram toda a paisagem, seja pelos murunduns e represamentos dos rios, seja pela terra preta, amplamente usadas para enriquecer o solo pobre amazônico e gerar alimentos para uma grande aglomeração humana. Porém, como em uma Europa romana, era um ecossistema antropomórfico, e florestal!


A arqueologia moderna ainda precisa avançar muito para entendermos em que lugares ou culturas as florestas começaram a ser vistas como inimigas, e quais povos, e por que, sempre fizeram das árvores suas companheiras.
Ao fim, uma nota sobre gripe aviária. Eu não vou explorar os itens explosivos do momento. Eu saí do instagram para não reagir, e assim, não vou falar da gripe aviária, ainda. Preciso ressaltar, pelo menos, que vivemos um momento bizarro, no qual um programa de contenção epidemiológica exemplar do governo brasileiro, passa a ser atacado por um grupo de lunáticos sem a mínima noção da complexidade e da eficiência das ações brasileiras. Bizarramente, um equívoco amplificado por parte da mídia oficial, responsável por manter o bom senso e clareza científica das informações. Basta comparar o fracasso do controle da gripe pelos EUA para entender comi isso é difícil e como estamos indo bem. Em breve, algo sobre essas pandemias em curso.
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