Tráfico de animais em tempos de rede social e alienação: consequências culturais e ecológicas.

A relação da humanidade com a vida selvagem se torna gradualmente mais frágil com o aumento exponencial das populações humanas e a decorrente degradação ambiental. Mesmos aves nativas formadoras de bandos naturais, como esses corvos (Corvus brachythynchos) que fotografei em Maryland, podem se tornar foco de transmissão de doenças como vírus do Nilo. Aves migratórias da América do Norte sempre foram as disseminadoras das gripes aviárias, mas esse cenário de riscos naturais está mesmo piorando?

Esse artigo da BBC, aqui abaixo, trás de forma preocupante o fato da juventude atual estar perdendo noção de duas coisas essenciais: respeito à vida e às leis. Preocupa mais que temos aí alunos de veterinária e biologia, agindo como os “red pills” dos pets traficados. Ok, há répteis legalizados? Sim, vindos de criatórios credenciados e devidamente legalizados. O governo tem um site que explica a domesticação de répteis Neste site se enfatiza inclusive riscos e motivo de exclusão de espécies, como periculosidade e riscos de transmissão de zoonoses. Há, portanto, um sistema instalado e funcional para que as pessoas adquiram animais exóticos de maneira segura e legal.

Ilegalidades? Entenda também as normas para estabelecimento correto do comércio de pets exóticos no Brasil: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/camaras-setoriais-tematicas/documentos/camaras-setoriais/animais-e-estimacao/anos-anteriores/app_criacao_pet_7ro_pet.pdf

Mas, o fluxo de animais ilegais, tomando a forma de ação entre amigos, ou confrarias pseudo-criminosas é que preocupa.

Voltando na questão das zoonoses, répteis trazem muito menos riscos de serem ou se tornarem reservatórios de doenças infecciosas capazes de transbordar para nós, dado que compartilhamos doenças com outros mamíferos e aves, predominantemente. Por outro lado, se animais não são devidamente castrados e mantidos com capacidade reprodutiva limitada, podem sim se tornar invasores biológicos graves. Há um programa do Discovery sobre os custos das pítons no Everglades, o Pantanal americano, fugidas de criadouros domésticos.

A extensão dos impactos da invasão biológica de uma espécie apenas. Os EUA calculam perderem 12% de sua produção agrícola para espécies invasoras que inviabilizam parte do território. Esquema:

https://discover.hubpages.com/education/Burmese-Python-An-Invasive-Species-Exposed

Aqui cabe uma ressalva, sobre os EUA serem um dos países menos regulados do mundo para criações, modificações genéticas, o que for! Aquilo parece um filme de ficção científica sobre o que se pode ter por lá. Hagrid ia ter nenhum problema em conseguir dragões ou aranhas gigantes nos EUA, sem precisar traficá-las em pubs sombrios no Diagon Alley – aliás, creio eu, Harry Potter acidentalmente se tornou uma das bases culturais para a rede de jovens traficantes inocentes que vemos hoje no mundo!! Para constar, pertence aos EUA, nos jardins de casas de ricos, a maior população de tigres do mundo, e isso preocupa muito, e dialoga com o fato de que os EUA e a China são os dois locais com maior risco de surgimento de novas espécies de coronavírus, como mostramos em artigo na Environmental Microbiology em 2022.

Nossa capa do número da Environmental Microbiology de 2022, onde mapeamos os riscos de emergência de novos coronavírus no mundo.

Mas aí, precisamos explorar as sutilezas desse universo pseudo-potteriano da aquisição de pets. Mesmo que um réptil seja legal, se for uma cobra, o que vai comer? Sondando esse universo descobri, numa busca rápida, como é fácil conseguir ratos mortos (alguns são vendidos em bandejinhas por tamanho, congelados) pelo instagram ou google. Aí, a surpresa. Conversando com uma amiga da vigilância de zoonoses da cidade, descobri que nenhum desses indivíduos vendendo ratos é reconhecido pela Prefeitura como uma empresa fornecedora de roedores! Ou seja, passam por fora da vigilância sanitária dezenas de fornecedores das espécies de maior risco para transmissão de doenças já problemáticas, como leptospirose, ou piores, como a peste bubônica. É ilegal criar ratos? Creio que não seja, mas certamente é ilegal cria-los em escala comercial sem a devida fiscalização sanitária e regramento, e é muito perigoso.

Quer um ratinho para o jantar, darling?

Aí vem, se répteis não são espécies que trazem grandes riscos zoonóticos, seu cardápio é! Poucas espécies são mais perigosas para transbordamento zoonótico que um roedor, e a criação desses carinhas corre solta, ilegal e perigosa. E invisível! Os órgãos fiscalizadores não estão rastreando esse comércio.

E fechamos com o tema do artigo: insetos. Não há, e não sei se tem muito como ter, regulamentação na criação de insetos. A menos que sejam espécies exóticas, aí temos algo sério. Muito menos que o impacto nos ecossistemas de origem dos indivíduos traficados, fica o risco de invasão biológica, de novo. Um exemplo, baratas. Há muita venda de baratas como pet, em especial a barata de Madagascar (Gromphadorhina portentosa). Espécies grandes, apteras, e com dificuldades para escalar vidros seriam espécies com pouco risco de escape. Mas com a mesma facilidade com que compramos a G. portentosa, comparamos Shelfordella lateralis, barata do Turquestão conhecida como ‘red runners’, a qual tem sim grande risco de escape, sendo uma espécie peridomiciliar, podendo se tornar invasores biológicos, a partir, por exemplo, de uma caixa extraviada dos correios. Essa última espécie é comprada viva como isca para pesca! Bem, fácil imaginar os cenários de riscos aí. Além do mais, não acredito que a vigilância sanitária esteja devidamente atenta a isso.

Diversas espécies de baratas e outros insetos, exóticos ao nosso Biomas, estão disponíveis para compra na internet. Essa é a Shelfordella lateralis. Não sei qual o grau de fiscalização desse comércio que de fato temos. As leis brasileiras preveem que criadouros possa existir mas deve ser devidamente fiscalizados tanto pelo Ministério da Agricultura quanto pela ANVISA, em especial se o objetivo for alimentação. Foto de um site de vendas nos EUA

Enfim, uma conclusão perturbadora. Na tora, pouco importa a dinâmica de mover animais e plantas mundo afora. Isso é parte da natureza humana, e enquanto dominarmos o planeta inteiro, faremos isso. Temos que lidar com as espécies exóticas ornamentais que os americanos trouxeram do Canadá e Europa nórdica, para colorir o outono washingtoniano, e que se tornaram invasoras dos parques naturais dessa parte dos EUA? Ou com os Rhododendron gigantes que os ingleses levaram para casa, após visitas à Portugal, e que dominam agressivamente os jardins da ilha, gostem os bretões ou não? Sim, mas talvez ponderando relações que sempre existiram.

Assim como a relação do homem nativo-amazônico com a castanha do pará redesenhou a floresta inteira (leia o post anterior sobre isso), nós remodelamos o nosso mundo. Eu tenho um jardim com umas 10 espécies arbóreas exóticas e apenas 5 nativas. Mas essa selva urbana possível mantém a escrita desse texto decorada com o canto de dezenas de aves nativas, que não se importam com a origem das minhas árvores. Portanto, somos criadores de “novos ecossistemas”, mas temos que regrar e minimizar ao máximo os riscos de alimentarmos o tráfico ilegal de animais ao mesmo tempo que precisarmos gerir de perto a vigilância de doenças e riscos de invasão biológica. Ou seja, primar para civilidade científica por trás de nossas atividades.


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