Serão as universidades públicas ou científicas antros da esquerda? Por que a extrema direita ataca o conhecimento?

Para começar, dá uma olhada nessa tabela aqui, do Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Faz suas contas sobre a contribuição das Universidades Federais para a inovação científica e tecnológica do Brasil. Eu não vou explorar aqui outros índices, como a produção científica brasileira, que, a despeito de todas as dificuldades que enfrentamos, nos mantém na posição de 13º país do mundo em produção de ciência. Embora isso seja enormemente impactante, quero focar nas patentes, para desconstruir aqui, nesse curto ensaio, o entendimento de que as universidades sejam antros do pensamento de esquerda no Brasil e em outros lugares do mundo, como os EUA.

Bem, primeiro, as patentes, todas com potenciais para desenvolvimento industrial. Nós, nas Federais, geramos a maioria delas. Quais não resultam em nada? Todas aquelas que não encontram financiadores. Aqui, entramos em um dos aspectos mais bizarros do sistema econômico do país que se associa à direita: ele não é em quase nada capitalista, mas oligárquico. Um sistema oligárquico não se importa de comprar toda a tecnologia que precisa para ser produtivo e competitivo em um mundo internacional globalizado, desde que as posições internas de poder não se movam muito. A despeito de defender várias posições progressistas que favoreceriam uma mudança interna do controle do dinheiro, ao favorecer o acesso ao ensino superior às minorias desprivilegiadas, a Presidente Dilma defendeu em mais de uma vez que comprássemos as tecnologias essenciais, e nunca estimulou a produção de soluções locais. Tal ausência de políticas de apoio para financiamento das patentes nacionais, de várias maneiras, anulou, e continua anulando, o favorecimento das soluções e do potencial de liderança científica nacional.

Assim, a despeito de todo esforço inabalável das universidades federais de continuarem produzindo soluções, andamos sem políticas para implementação dessas soluções nacionais que criamos ao longo das décadas de governos de esquerda. Porém, preciso dizer, mais ainda no curto governo de extrema direita e no período de golpe sem noção do Temer. Então, se um dos principais produtos para a sociedade que criamos é desmerecido pelos governos de esquerda, como somos antro do pensamento de tal ideologia? Vamos explorar isso um pouco mais.

Além de produzirmos soluções para a indústria, agricultura e saúde, gerando soluções e processos que aumentem nossa produtividade, mesmo que boa parte dessas soluções não encontrem financiadores, como podemos sustentar o pensamento de esquerda na nossa essência? Mais importante, talvez seja nos perguntarmos se mantemos qualquer preferência ideológica sequer! Nas origens da Royal Society, em 1660, imediatamente após a pior guerra civil da Inglaterra, a tentativa de evitar todos os conflitos ainda latentes em uma sociedade radicalmente dividida (pateticamente, tão similar ao que vivemos no Sec. XXI!!!!), o então possado Rei Carlos II, criou a Sociedade com duas regras fundamentais: a proibição da manifestação e discussão das preferências políticas e religiosas de seus membros (que, em grande parte, significavam a mesma coisa na época). Nunca trabalhamos vinculados à ideologia, pois a construção do conhecimento desconhece tais domínios. Não que, no entanto, não sejamos orientados por demanda, tempos em tempos, para atender o sistema produtivo.  No entanto, tais demandas e respostas ao setor produtivo, nunca reprimiu a discussão e desenvolvimento de pensamentos humanistas de teor não produtivista. As universidades, portanto, em essência, são plurais e diversas! Isso nunca implicou em um domínio do pensamento de esquerda nas universidades, aqui ou no mundo. Mas sim, a investigação de qualquer pensamento.

A Royal Society, portanto, a ciência moderna, surge no seio das elites inglesas e francesas, para depois, dada a exigência de não controle do pensamento, conseguir se libertar do controle dessas elites, que ainda assim precisam da ciência.

Fonte – Bibliot3ca de Fernando Pessoa: https://bibliot3ca.com/

Um ponto essencial para entender o conhecimento e sua captura e transformação em tecnologias e soluções, é claramente descrito no livro de Willy Thayer, “A crise não moderna da universidade moderna”, de 1996 (traduzido em 2002 para o português e publicado pela Editora da UFMG). Veja, muito anterior ao bizarro processo de polarização forçada pela manipulação da ignorância política, e manipulada pela extrema direita contemporânea. O que Thayer descreve é o fato de que a universidade vive da apropriação do conhecimento tradicional, na medida em que tal conhecimento tenha potencial de reprodução pelos métodos científicos consagrados pelos modelos ocidentais. Interessantemente, a nossa mais recente perda dramática, Profa. Niéde Guidon, sempre buscou resgatar o conhecimento local, na tentativa de associar a história da ocupação das terras do nordeste brasileiro, e com isso re-escreveu a antropologia das Américas! E foi desprezada por parte da comunidade científica por muito tempo por isso.

Assim, sempre trabalhamos pelo uso dos saberes para a melhoria geral das sociedades, ou para o reforço de um modelo de domínio, fato. Como tal visão tende a ser ampla e diversa, também era esperado que da mesma universidade surgissem visões e atuações que revisem e questionem tal modelo. Termos como “doenças negligenciadas” surgem claramente do debate científico livre e não regulado que nasce da essência da academia científica e, fundamentalmente, no seio das universidades que se dedicam à pesquisa científica e reflexão sobre a natureza.

Aqui, outra distinção importante que os atuais ataques às universidades americanas ajudaram a nós, aqui, em estado de pseudo-colônia de pensamentos e valores, a entendermos. O que faz uma grande universidade não é ser pública ou privada, mas ser capaz de captar grandes verbas públicas para o desenvolvimento científico da sociedade. Veja, as universidade atualmente sob ataque do Trump não são públicas, mas privadas. Ainda assim, a excelência científica e liderança global são devido à competência para captar recursos públicos para pesquisa científica. No fundo, não somos diferentes. Temos um sistema público que mantém o ensino na graduação e a estrutura funcional básica das universidades federais, o que fazem de nossas universidades mais inclusivas, ao menos desde as políticas implementadas no Sec XXI. No entanto, a excelência é disputada por editais abertos a todos! Aqui, duas diferenças importantes para o sistema americano: 1) as universidades privadas brasileiras não se interessam pela geração do conhecimento, mas pela gestão do conhecimento estabelecido, sobrando às instituições públicas a sobrevivência da liderança brasileira na ciência global; 2) a fraca rede de subsídio para que o setor produtivo usufrua e financie o potencial produtivo das universidades brasileiras. Voltando para dentro do sistema produtivo das universidades científicas, o sistema é basicamente meritocrático, hierárquico, e altamente competitivo. Nada menos de esquerda que isso! Por bolsas e financiamentos, é autorizado e legalizado que professores ganhem diferenciadamente, em função das pesquisas que conseguem trazer para a universidade, ou mesmo por prestação de serviços em nome da sua instituição. Não temos um sistema de compartilhamento igualitário de recursos, somo moldados no pensamento capitalista no que toca ao financiamento à pesquisa ou a circulação do conhecimento.

Ainda assim, com todas as dificuldades, é isso que nos define: a geração de tecnologia a partir da construção LIVRE do conhecimento científico. Fruto de toda a forma de pensar e refletir a sociedade, claro que o pensamento de esquerda povoam setores de nossas universidades, bem como QUALQUER universidade séria do mundo. No entanto, não as faz como ideologicamente direcionadas. Nas universidades, simplesmente os diferentes pensamentos e visões sobrevivem e coexistem! E não consigo imaginar nada mais positivo para a sociedade. Como se tivéssemos conseguido amplificar as bases que foram necessárias para a Royal Society surgir e se empoderar séculos atrás!

No entanto, hoje, movimentos de extrema direita tentam desmerecer o saber, usando a negação das universidades como locais da preservação do saber contemporâneo! Como fazem isso? Ignorando todo progresso científico e tecnológico para exacerbar o pensamento humanista e progressista como um antro do pensamento não liberal. Então, sim, somos o abrigo do pensamento livre e contestador, e devemos ser isso mesmo, por princípio! Ainda assim, ainda somos a grande força motora por trás do progresso e das soluções para o mundo vigente, um mundo tecnológico e fundamentado na ciência e capitalista. Não há conflito nisso, ao contrário, e o ataque ao conhecimento só terá um produto: o desastre econômico e civilizatório dos países que adotarem tal postura.


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