
As colunas do Templo de Serápis, onde parte do acervo da Biblioteca de Alexandria estavam. Da biblioteca, nem ruínas sobraram, como foi o caso da cidade Perséfolis, na Pérsia, de onde Alexandre o Grande (ladrão) roubou parte das riquezas de seu império. A destruição da Biblioteca dá na leitura ocidental a percepção de que ali a sabedoria antiga foi perdida. Mas a sabedoria e a diversidade de culturas do mundo antigo foram destruídas no processo da construção desse prédio e dessa cultura grega. A percepção moderna de que a Grécia é a fonte da riqueza antiga vem da história contada dos vencedores, e de toda a riqueza de fato que destruíram e roubaram. Os gregos eram guerreiros, sabedoria, eles roubaram.
Figura de https://www.todamateria.com.br/
Antes, permitam-me um pouco de história para iluminar um pouco as realidades profundas do Irã e Israel, e a percepção ocidental de civilização.
A destruição da Biblioteca da Alexandria é vista pelo mundo atual como uma destruição irrecuperável dos saberes da antiguidade. No entanto, o que a maioria das pessoas não sabem é que se entendessem minimamente a história, ter alguém chamando Alexandre seria tão estranho quanto chamar o filho de Adolph. E diferente de Hitler, que preferiu não bombardear França que era linda demais, Alexandre o Grande queimou e destruiu a fabulosa Persépolis em 331 a.C., capital da Pérsia antiga, atual Iran. Assim como enterrou em cinzas todas as civilizações que o Império Persa protegia. Sim, isso mesmo. Na escada que levada ao Rei da Pérsia, Ciro, restaurada recentemente, há a imagem entalhada de centenas de pessoas de diferentes etnias subindo para pagarem seus tributos. Embora controlassem seus povos dominados, os persas não os desmantelavam. Diversas culturas, religiões, línguas coexistiram dentro do Império persa. Lembre-se que o rei Ciro foi quem ajudou os judeus libertos da escravidão egípcia a voltarem à Jerusalém, fato histórico, mas também amplamente descrito na Bíblia.

Escadaria de Persépolis, representando a coexistência de povos submissos ao Rei Ciro.
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Aí vieram os gregos. Alexandre destruiu tudo no seu caminho, de Roma até o oeste da Índia. E tudo roubou, criando a sua biblioteca, e a sua narrativa de mundo e civilização. Depois de morto, suas guerras e destruições pioraram, nas mãos de seus generais altamente divididos e disputando o controle do Império. Ainda assim o butim acumulado em Alexandria de fato se tornou o que restava para entender um mundo já destruído. E por lá filósofos e outros estudiosos dos primeiros séculos do Milênio cristão, passaram até sua destruição entre 48 e 275 d.C.
E escrevo isso vendo TV, e enojado com a imagem de Netanyahu difamando o Muro das Lamentações ao colocar ali uma nota associado os iranianos ao cão, nominalmente, o demônio. Esse Irã que fez o mundo esquecer as atrocidades contra Gaza, quando atacado por Israel, impressionantemente, mantém a imagem de selvagens que a Grécia lhes impôs. A Grécia cruel, perversa e destruidora de mundos. E, nos dias de hoje, ainda compramos essa ideia dos descendentes dos Persas, uma das mais belas civilizações que o mundo viu. Claramente compramos quando se vê uma imprensa mais pró-palestina virar de uma noite para o dia pró-israel. Mas, o que de fato está em disputa ali, há mais de um século, não é origem, cultura, etnias, honra, fé. É petróleo.
E o clima com isso? O post não era sobre aquecimento climático? Bem, sim, queria voltar na resiliência das narrativas em períodos de guerra. O que estamos presenciando nos resgata o que vivemos em tempos de profundo estresse e cometimento do mundo com as guerras americanas, como vimos na época das guerras do Iraque, de 1991 e 2003. E assim como os fatos e realidades sobre a destruição de civilizações que perdem guerras, a leitura do mundo durante e pós guerras passa a ser feita pela ótica de quem convence estar fazendo o certo, e todo o resto se perde. Em nosso mundo complexo, as agendas civilizatórias, científicas e humanistas também só aparecem se estritamente vinculadas ao esforço de guerra. Em especial se a guerra escala ao ponto de não participantes terem que tomar lados.
Mas de fato temos um problema com o avanço das agendas climáticas? Ainda não, mas talvez já se possa sentir a perda de poder dessas, cujo primeiro sinal está no desaparecimento do clima como uma das notícias mais relevantes ao mundo. Ainda temos notícias climáticas mas já não mais todos os dias. A percepção da relevância do clima já vinha mudando com a eleição do Trump, que se esforça para inibir esse debate. Mas podemos achar um padrão temporal político sobre a percepção da ciência e do ambiente pelas pessoas normais?
Noailly et al. (2024, Journal of Public Economics) desenvolveu algo nesse sentido, ao avaliar os efeitos de ações positivas na exposição do clima e o meio ambiente nos jornais americanos. Claramente, o clima só viralizava como notícia quando havia novas oportunidades de negócios ou necessidade de ajustes legais devido a leis regulatórias. Ou seja, na maior economia do mundo, talvez diferente daqui, ambiente e clima só são notícias sob indução de ações afirmativas.

Interesse dos jornais americanos com meio ambiente e clima ao longo dos anos.
https://doi.org/10.1016/j.jpubeco.2024.105190
E se olharmos o oposto nesse gráfico acima? Os avanços no interesse pelo clima de 1987 a 1991, uma época de reafirmação global nos fatos relacionados ao aquecimento global, e na busca de soluções tecnológicas terminam em queda abrupta desse interesse após o início da guerra do Golfo, em 1991. A despeito de fatores positivos no ano seguinte, como a adoção da UNFCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, lançado no Rio 92, a origem das COPs!), o tema não decolou mais até 2001 e 2002, com mudanças nos planos de energia limpa nos EUA e também Lula eleito no Brasil, levando Marina Silva e uma agenda de proteção à Amazônia até então insólita, mesmo que presente desde 1988. No entanto, esse pico de interesse durante os anos 2001 e 2002 dissolvem completamente com o início da guerra do Iraque em 2003, de novo.
Então, temos 2005 com o Katrina destruindo Nova Orleans, mostrando inquestionavelmente que os eventos climáticos ficariam mais extremos daqui para frente, e levando a aprovação no senado americano da Global Warming Solutions Act (AB 32). Esse momento não criou um pico de debates e notícias, mas parece ter afetado todo o imaginário da humanidade, e resgatando uma tendência de alta crescente no interesse pelo meio ambiente e clima, de forma constante e gradual, até 2009. Em 2009, temas como a gripe aviária poderiam ter alavancado ainda mais questões climáticas, bem como a eleição de Barak Obama, mas a recessão econômica global em avanço, parece ter ofuscado tais pontos positivos. Embora o tema ambiente e clima nunca mais tenha deixado as notícias, é o Acordo de Paris que retoma uma tendência positiva mais marcante.

O tema clima, continua circulando igualmente no mundo ou nas imprensas especializadas e mais em países com maior engajamento econômico e social com o tema?
Tendências similares acontecem no mundo todo, com sutis diferenças. Por exemplo, uma outra publicação mostrou o aumento exponencial de notícias sobre o clima na Finlândia após os efeitos do El Nino intenso de 2006 e 2007. Ou seja, no início do século e final do século XXI, o tema era bombado pelas ações positivas e esforços de reversão. No momento, parece que elas serão estimuladas pelas catástrofes causadas pela nossa inação.

Clima nas notícias da Finlândia. http://dx.doi.org/10.5772/24980

A notícia do clima é mais efetiva aqui que no resto do mundo?
De volta ao conflito atual, atrelado ao tremendo negacionismo climático de Trump. Quais serão as consequências dessa inversão de valores globais? Os conflitos causados pelas mesmas pessoas que não se interessam por agendas positivas e construtivas no mundo poderão nos distanciar por completo da busca por um futuro sustentável e viável? Afinal, estamos falando de mais uma guerra do petróleo! Não podemos nos esquecer disso.
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