As epidemias esquecidas do início do Sec XX e suas revoltas da vacina: a varíola carioca, a peste bubônica de São Francisco e suas bases racistas.

“as moradias pobres abrigavam as classes perigosas, sujas, de onde saíam as epidemias e toda sorte de ruindade”, transcrito de Sidney Chalhoub, em “Cidade Febril: Cortiços e Epidemias na Corte Imperial”, Cia das Letras, 2018.

População chinesa em São Francisco, 1900. O racismo americano se manifestava da forma mais crua possível, e convertia vítimas de uma epidemia em reservatórios desgraçados

Essa crônica confunde as histórias de epidemias com as dos epidemiologistas que batalharam seu controle, e lida com aspectos sociológicos e políticos do combate de doenças infecciosas, mas, também, profundos aspectos humanos daqueles que enfrentam a ignorância na qual as sociedades se constroem! E uma dessas histórias é do homem reconhecido post-mortem como primeiro Diretor Honorário do NIH. Kinyoun criou o National Hygienic Laboratory foi a mãe do National Institute of Health, NIH, que me recebeu e que eu aprendi a admirar profundamente.  

As similaridades são muitas entre São Francisco e Rio de Janeiro. Início do Sec XX, o centro da ciência mundial era Paris e Pasteur, Cohn e Cock eram as grandes referências do final do século anterior de uma revolução no entendimento da microbiologia, que, decorrentemente, revolucionava a medicina e a saúde pública. De lá, Oswaldo Cruz, no Rio e Joseph J. Kinyoun, em Washington DC, foram treinados e na Europa, ainda profundamente colonialista, foram moldados. Não que não fosse importante, isso era mesmo determinante das raízes do pensamento científico contemporâneo que ali nascia. Vale a pena lembrar que essa foi a Era da origem da Medicina Tropical. Não da medicina tropical que conhecemos, inclusiva e devotada às doenças negligenciadas. Na origem, a medicina tropical era a busca pela cura do colonizador que vivia nos trópicos hostis. As populações locais e em especial indígena, eram parte dos reservatórios dessas doenças, e não das pessoas, por mais sensíveis que alguns cientistas fossem ao sofrimento dos locais (para não ser injusto com alguns).

Oswaldo Cruz representado à frente do Castelo Mouro de Manguinhos. Havia algo de insano e pixotesco em tentar erradicar doenças tropicais!

Para constar, a London School of Tropical Medicine (1899), Institute Française de Médicine Coloniale (1902), e o Instituto Soroterápico Federal (Manguinhos, 1900) perdiam de longe para a real mãe da Medicina Tropical, a Escola Tropicalista Baiana, surgida dentro da Faculdade de Medicina de Salvador, em 1860. E ali, uma pessoa representa bem esse enclave entre colonialismo e racismo dentro do qual a Medicina Tropical nasceu: Nina Rodrigues. Anos após criar essa Escola, Nina se torna o pai da medicina forense no Brasil, agora seguindo outra escola, a italiana. Nessa escola, o bandido nascia bandido. Não precisa nem dizer que as morfologias ligadas às etnias oprimidas, escravizadas e empobrecidas, ou seja, africanos, asiáticos e bálticos, eram as formas faciais que mais se relacionavam com a bandidagem. Pela raça, e não pela pobreza na qual viviam dentro do mundo ocidentalizado (ocidentalizado porque o Brasil nunca foi visto como Ocidente, para desespero da nossa elite). Nina tem o ápice da sua imbecilidade no momento que sugere que a única forma de desenvolver Salvador seria exilar todos os negros na Amazonia! Essa fala e outros debates da época dentro da Escola de Medicina foram reproduzidos no “Tenda dos Milagres” de Jorge Amado, mas pode ser lido nas paredes do museu que hoje fica no prédio original dessa faculdade, no Pelourinho.

Duas visões da fantástica Faculdade de Medicina de Salvador, onde nasceu a Escola Tropicalista Baiana. Quando for ao Pelourinho, saindo do Largo Terreiro de Jesus, atente-se ao prédio à esquerda, e entre para entender essa história da ciência e da medicina brasileira.

Com essa fala, que é sim situada em um contexto histórico muito claro, que começo nossa história sobre a ignorância científica, oportunismo político e os equívocos dos próprios cientistas, pelo contexto de suas formações. E, em uma época de grandes epidemias, como a febre amarela, e pandemias, em especial a peste bubônica e varíola, antecedendo em quase 20 anos a gripe espanhola. Em 1900, Kinyoun é transferido para São Francisco para lidar com casos esporádicos de peste bubônica que chegavam pelo porto da cidade que recebia as embarcações da Ásia. Em 1903 Oswaldo Cruz, recém-chegado de Paris, é designado pelo Presidente do país como responsável pelo combate às epidemias que destruíam a imagem do Rio de Janeiro (sim, não foi pelas pessoas adoecidas, mas porque estávamos perdendo espaço no comércio internacional por medo dos estrangeiros).

Nina Rodrigues, seguidor de Cesare Lombroso nas teorias mais nefastas que a ciência produziu, cego pelo racismo, escreveu: “A igualdade é falsa, a igualdade só existe nas mãos dos juristas”.

Kinyoun em breve estaria tentando controlar a peste se espalhando silenciosamente pela China Town. E aqui, uma contextualização do racismo americano contra asiáticos. Chineses podiam viver ali, mas não tinham direito à cidadania, nem a atendimento dos hospitais dos brancos, nem nada. Eram tolerados por serem criados baratos. Lembra algum tempo presente naquele mesmo país? Pois é. Desconfiados da população branca, os chineses escondiam as mortes. Kinyoun, seguindo protocolos contemporâneos para controle e erradicação de doenças, ignorava as pessoas como tais: gente com história, vida, questões religiosas, estruturas sociais distintas das que ele entendia.

Ou seja, as pessoas pobres não eram, como ele esperava, um apanhado de humanos, mas uma sociedade estruturada, nas margens da sociedade que ele vivia. E essas pessoas estruturadas foram ultrajadas quando a elas foi-se imposto a invasão de seus corpos pela obrigação de vacinação, somada a quarentena imposta à toda a China Town. Aí, enfrentou uma revolta estimulada pelos grandes comerciantes chineses em conluio com os ricos de São Francisco, que não queriam sua cidade malvista. Enquanto isso, Kinyoun entendia que uma cidade portuária conectada com o leste por trem, poderia sim ser a origem de uma epidemia nacional catastrófica. Por que os políticos e ricos não se preocupavam? Cria-se na época que brancos não pegariam essa doença, o que durou até o primeiro branco adoecer! Ali como no Rio, também se entendeu que a fonte das contaminações eram os ratos, no caso, os que vinham dos navios asiáticos, e se fez uma grande campanha de erradicação com envolvimento das pessoas, mas não por Kinyoun, e sim por seu sucessor, pois depois da revolta, ele foi mandando para outro lugar.

Oswaldo Cruz, por sua vez, fracassou na vacinação da febre amarela, venceu o combate aos ratos e na transmissão da peste bubônica (também envolvendo as comunidades e comprando ratos capturados), e foi destruído quando convenceu o Presidente a impor vacinação obrigatória contra a varíola. Aí, em 1904, ele enfrentou a revolta da vacina. Curiosamente, estimulada pelos militares, insatisfeitos com uma presidência civil (olha, militares manipulando a saúde pública para ganhos pessoais!  Quem poderia imaginar isso, né?).

As convergências na manipulação dos fatos e ridicularização dos cientistas, pela sua forma truculenta e insensível na busca de uma solução, pelo caminho mais improvável política e sociologicamente. Cartoon do Rio extraído do site https://aventurasnahistoria.com.br/; cartoon de São Francisco do documentário “Plague of the Golden Gate PBS America.

Cientificamente, Cruz e Joseph J. Kinyoun, estavam errados? Não, mas Rupert Blue que em São Francisco substituiu Kinyoun, venceu a epidemia, com uma abordagem nunca considerada pela fria e imparcial nascente epidemiologia. Ele conversou com as pessoas e entendeu sua estrutura social. Blue não tinha a formação acadêmica de Cruz e Kinyoun, e, perdido no cargo que assumiu, escolheu morar nas proximidades do distrito chinês, e passou a visitá-los com um intérprete local, e entender como essa sociedade à parte funcionava. Ganhou a confiança das pessoas, e diversos casos que tinham sido encobertos foram expostos a ele, abrindo caminho para entender a dinâmica do espalhamento da doença. Blue trabalhou educação sanitária, ensinou a limpar ruas, dispensar o lixo de forma correta, levou a comunidade como vítima e não fonte da doença, e venceu.

O desprezo às particularidades sociológicas dos chineses entrava em embate com as imposições sanitárias, como passaportes de vacinação. Algo que até a volta da extrema direita, todos entendiam como normal, não era normal nas origens da saúde pública e o desprezo pelos aspectos sociológicos das comunidades carentes, em nada ajudou.

Parece óbvio hoje, mas as bases fortemente racistas das sociedades europeias que moldavam toda a América não deixavam os cientistas da época verem isso. E fico pensando aqui, se mesmo sem as duas grandes guerras, os Estados Unidos acabariam tomando o protagonismo do mundo por uma postura mais inclusiva e humanista na saúde pública, movida por iniciativas como a de Blue, que de fato começavam a mudar a medicina e saúde pública.

Pode imaginar a força de uma fake news sanitárias, se apoiada pela imprensa oficial, que hoje entendemos como salva guarda dos fatos? Os interesses políticos e econômicos eram muito mais agressivamente impostos à frente dos interesses da população. O que recentemente assistimos na pandemia de COVID-19 foi a tentativa de reviver essa Era da manipulação, mas agora pelas redes sociais que escapavam ao controle da lei e dos fatos. Uma reinvenção das imposições oligárquicas contra a ciência que a todos protege.

A postura humilde e vitoriosa de Bleu se somou ao rigor científico de seu antecessor, Kinyoun, que assim como Oswaldo Cruz, teve seu devido reconhecimento na história da Medicina moderna. Mais que isso, o rigor protocolar da epidemiologia, que se reinventava à luz do entendimento da origem microbiológica das infecções, somado com a visão humanística e antropológica das vulnerabilidades de grupos étnicos e sua importância como vítimas de doenças negligenciadas pelas elites, recriou a própria Saúde Pública e, no sul Global, a Medicina Tropical. Soma essa que acabou moldando o CDC e NIH, e dali o USAID. Agora, três instituições sob o ataque de Trump, estando o USAID já extinto. Assistimos então o fim desse protagonismo, um século depois?

A peste bubônica se expandia escondida pelos chineses, que temiam aos brancos mais que à doença mortal. E essa não foi a única vez que comunidades carentes e negligenciadas se sentiram mais a vontade com um patógeno do que com os brancos opressores. Terrível isso, não lhe parece?


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