Lendo ciência e notícias no café de domingo. A Era dos patógenos, a Era dos antibióticos e a Era da ignorância

Painting from the burial chamber of Sennedjem, c. 1200 BC. A agricultura e pecuária já tinham mais de 10 mil anos de idade na época dessa imagem.

Sim, agricultura, sedentarização (sensu existência em um mesmo local, não no sentido de falta de exercício, que usamos coloquialmente) são a fonte da acumulação de patógenos que moldaram nossa civilização.

O artigo abaixo é um dos primeiros a quantificar adequadamente esse fenômeno, o qual já era relativamente bem entendido. De forma geral, o conjunto de tecnologias entorno da domesticação de plantas e animais nos permitiram aumentar a capacidade suporte dos ambientes e, com isso, aumentar no tamanho das populações capazes de existir nesses locais, sem a necessidade de migração entre locais, que aconteciam para não exaurir as fontes de recursos.

Tal sedentarização cria uma série de fatores sociais de grande importância, como senso de pertencimento, cultura, e circulação de mercadorias, fruto dos excedentes produzidos.

Por outro lado, tal existência previsível e em grandes densidades em um mesmo local, geração após geração, também criou os nichos necessários para que diversos patógenos explodissem como fontes de diversas doenças epidêmicas, assim como permitiu que as probabilidades de infecções novas criassem as chances ideias para que patógenos de outras espécies, em particular nossos animais domesticados, pudessem transbordar para nós, passando a compor nosso cartel de doenças recorrentes.

Em decorrência, em diversos momentos na história da humanidade, e nas mais diferentes escalas espaciais, as doenças que evoluíram entorno de nós e de nossa movimentação de pessoas e mercadorias, funcionaram com reguladores das populações humanas, ou seja, causavam mortalidades em escala monumental, deprimindo demografias.

A última vez que presenciamos isso foi 1918, na gripe espanhola. Ali, o mundo perdeu de 50 a 120 milhões de pessoas, dependendo de que estatístico você pergunta. Em um mundo de 2 bilhões de pessoas, foi um impacto de 4% da população, em média, uma mortalidade maior do que a causada pelos conflitos da Primeira Guerra Mundial, que acontecia no mesmo tempo. Se olhar a COVID-19, nas piores projeções perdemos 15 milhões de pessoas em um mundo 8 bilhões. Ou seja, uma tragédia pessoal, cultural, política, mas um arranho suave na demografia global (e um cala a boca nos malucos conspiracionistas que acham que a pandemia seria uma arma da ONU para diminuir a população. Olha que loucura!).

A diferença de uma pandemia, em 1918 e a outra, em 2020? 1940, o ano do antibiótico. Interessante notar que a maioria das mortes por H1N1 em 1918 e 19 não foi pelo efeito direto do vírus, mas pelo avanço descontrolado de infecções bacterianas oportunistas secundárias, em um mundo sem antibiótico. Até aquele momento, com exceção do vírus da varíola e algumas gripes, os grandes algozes da humanidade eram as bactérias, nominalmente, o vibrião do cólera e a peste bubônica, o Yersinia pestis. Mais que a vacina, que depende de mobilização e convicção política para funcionar, o antibiótico mudou nossa paisagem patogênica. Claro, quando temos esses aspectos sócio-políticos sob controle, a vacinação em massa sempre funcionou, ao ponto de termos erradicado a varíola, a mais transmissível e ao mesmo tempo letal doença que enfrentamos. Mas o antibiótico é cura. Se aplica com o sujeito manifestando a doença, a doença regride, e não há fanatismo e fantasias que sobrevivam a isso. E mudou o mundo, tirando a ênfase no prevenir e jogando ela no remediar.

E aí veio o momento atual, do renascimento da extrema direita fantasiosa e com nuances de retorno ao selvagem, do primitivismo. Sim, temos isso, mas é sutil nos dias de hoje, embora nem tanto. Lembra do maluco com chifres de veado e roupa de pele de animal que se sentou na cadeira principal do Capitólio, na invasão de 06 de janeiro, após a vitória de Biden? Ele é um “artamanen” moderno, precursor do retorno à vida selvagem, o que, nos movimentos nacionalistas e racistas, pressupõem que isso é para os fortes, e os não fortes, morreriam no processo.

“QAnon Shaman” se declara culpado por crime em invasão no Capitólio dos EUA (foto CNN). Um Qanon é um membro de grupo radical extremista nacionalista americano.

Bem, nos afastando desses movimentos do Sec. XX, e das suas complexidades extremistas, vamos dar uma olhada nas decisões do HHS – Health and Human Services – equivalente ao Ministério da Saúde dos EUA. Primeiro essa notícia extremamente perturbadora de que a médica que fraudou milhares de vacinas falsas de COVID-19, jogando vacinas reais fora e pondo a vida das pessoas em risco, teve seu processo judicial anulado. Ou seja, agora ela é aplaudida por ter dado às pessoas a escolha de não se vacinarem, e não é vista como uma profissional da saúde que ameaçou vidas e um projeto de imunização coletiva.

Aí, vemos outra notícia, profundamente grave: uma morte em território americano por peste pulmonar. E essa notícia já entra na seara dos fracos que morrem, e da perversidade disso tudo. Veja, as políticas de saúde pública preventivas modernas, inclusive dentro dos conceitos de Saúde Única, pressupõem melhoria na alimentação, no meio ambiente, no bem-estar, e no acesso a tratamentos, em especial, VACINAS! O HHS está fazendo um desses aspectos, atacando, ao menos verbalmente, a indústria alimentar e seus efeitos na saúde do povo americano. De fato, isso é um ponto que não se vê nenhum Ministério de Saúde ousando atacar. Afinal, não havendo os ultraprocessados, o que poderá alcançar 8 bilhões de pessoas? Temos, afinal, alguma alternativa que não a fome? Eu, sinceramente, e isso não é uma provocação, não sei.

Aí temos um HHS que nega vacina, restaura direitos a médicos que combatem vacinas, e que querem que as pessoas comam bem melhor e lutem contra as doenças. Aqui, eu termino o texto com a afirmação autoexplicativa: entramos na Era da Ignorância, e da manipulação perversa das intenções.


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