
Diferentes espécies competem ou colaboram? Imagem capturada do doc “The Hidden language of trees: how forests secretly communicate”
A inspiração desse texto é o doc “The Hidden language of trees: how forests secretly communicate”, do “Free High-Quality Documentaries”, que recomendo muito. Mas também a notícia de um seminário sobre florestas hiperdominantes nas Américas tropicais e subtropicais, do INPA.
Essa hiperdominância não passa de 50%, a não ser em casos específicos, como o Paratudal, uma das raras monodominâncias tropicais que eu estudei no meu doutorado no Pantanal. No caso, uma monodominância de Tabebuia aurea, ipê amarelo, uma coisa maravilhosa de ser ver e numa escala espacial muito grande. O pantanal é um bioma muito particular, evoluído recentemente e moldado por severas imprevisibilidades e extremos climáticos naturais. Devido a isso, poucas espécies oportunistas que conseguem se estabelecer ali chegam a elevadas densidades populacionais. Sim, o Pantanal não é importante pela diversidade biológica que é baixa, mas pela abundância, portanto, elevado pool gênico, das espécies ali presentes (ameaçadas em todos demais Biomas brasileiros). Agora, fora dali, o que predomina é a elevada diversidade biológica dos trópicos, mas também de qualquer floresta madura.

Paratudal, uma monodominância de Tabebuia aurea de 30.000 km2, elemento fabuloso e negligenciado da paisagem pantaneira, e tema do meu doutorado no Imperial College. Foto – Embrapa, Guia para identificação das pastagens nativas do Pantanal.
Mas se a teoria de Darwin prediz que os genes melhor adaptados levariam ao sucesso reprodutivo dos indivíduos que os sustentam, não deveria a seleção natural levar à populações geneticamente mais homogêneas, e, como consequência, levar uma espécie a superar as demais no espaço? Essa percepção é superficialmente correta, mas tal aparente paradoxo, o da biodiversidade, foi resolvida por William Hamilton. Hamilton demonstrou matematicamente que uma força seletiva em particular favoreceria a variabilidade genética intraespecífica e não uma vitória monocrática de um certo gene mais bem adaptado ao ambiente circundante: doenças! Organismos patógenos evoluem mais rápido que seus hospedeiros, e isso força a vantagem adaptativa de genes raros que um patógeno não reconheça ou não consiga infectar. Tal condição seletiva é onipresente no planeta e, potencialmente, intimamente relacionada com a origem da reprodução sexuada. E tal fato, a saúde de cada indivíduo, dialoga profundamente com a percepção atual de diversidade das comunidades ecológicas.

Os trabalhos seminais de Bill Hamilton sobre infecção e polimorfismo moldaram meu pensamento evolutivo, desde o tempo das árvores e ainda é fundamental para como eu vejo a evolução de doenças humanas.
Na verdade, o próprio Darwin fez uma preleção lindíssima sobre o papel da diversidade biológica na manutenção de cada espécie em um ecossistema. Ao final de uma das edições da Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural, ele soltou o texto “The Entangled Bank”. Nesse, ele descreve quase poeticamente a relação entre as espécies que compõe um barranco em beira rio. De maneira profética, descreve como as espécies de microrganismos se interconectam com as plantas e insetos nesse pequeno ambiente complexo. Descreve, hipoteticamente, algo que só seria quantificado mais de 200 anos depois, a importância dos microrganismos na estruturação e saúde de organismos multicelulares aos quais estão associados.
Pensando em animais, temos essa percepção bem clara, sobre o papel da nossa microbiota intestinal e de pele na nossa saúde, mas no caso de árvores, isso toma outra dimensão. Não apenas as espécies de microrganismos diretamente associadas às plantas, sejam nas folhas, raízes ou tronco, mas também aquelas no solo, contribuem para a saúde de cada árvore. E, porque o papel da redundância de espécies é chave para a estabilidade das comunidades ecológicas, quanto mais espécies de árvores juntas, maior a diversidade de microrganismos, logo, maior o benefício coletivo de várias espécies juntas.


Interconexões entre microrganismos associados a diversas espécies de árvores torna o habitat mais saudável para todos.
Ou seja, como previsto por Darwin, por mais que exista a possibilidade de competição interespecífica, ela possivelmente é um fato secundário na estabilidade de comunidades ecológicas, centrada na elevada diversidade. Ou seja, para ser bem-sucedido e manter populações viáveis por longo tempo é preciso compartilhar recursos com outras espécies, o que gera comensalismo e não competição. Outra medida do sucesso reprodutivo, mais sutil que o maior número de descendentes geração após geração, é a manutenção estável de um número superior de descendentes, que pode, ainda assim, ser feito de poucos indivíduos. O fato de que espécies distintas criam sutilezas na paisagem acaba favorecendo a manutenção de muitas espécies essenciais para a sobrevivência da maioria. E é um link fundamental para tal estabilidade em alta diversidade, as associações individuais e coletivas com a microbiota do solo e da rizosfera de cada árvore na floresta.

A diversidade de espécies está sendo erodida mesmo nas localidades mais isoladas, dada as mudanças climáticas aceleradas. A estabilidade planetária depende da capacidade das florestas funcionarem propriamente a fim de prestar serviços como sequestro de carbono. Conseguiremos preservar a diversidade necessária para funcionalidade? Não sei.
Como árvores são, por motivos óbvios, estruturadoras da paisagem, fica fácil pensar nelas dessa maneira, ou seja, componentes do habitat mais do que usuários do mesmo. Ainda assim, essa diversidade e complexidade biológica cria estabilidade entre animais também. No caso de vertebrados, a diversidade de espécies leva à diminuição de riscos de emergência de novas doenças. Assunto para um outro post.
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