
O Smithsonian perderá o poder de escrever sua própria visão científica do mundo?
Primeiro uma distinção aqui já feita em outros posts. Nem todo autocrata é anticiência, e nem o são todos os conservadores da chamada direita ou extrema-direita. A direita tradicional em países como o nosso investem menos em ciência porque acham que o investimento em educação, saúde, e conhecimento devem ser feito como prioridade dois, atrás do equilíbrio fiscal. Alguns extremistas, por sua vez, ainda entendem que precisam de ciência, mas limitada aos seus objetivos autoritários, portanto, quase sempre, com benefícios bélicos. Nessa percepção, é importante ressaltar que temos três pré-candidatos à Presidência nessa interface direita para extrema direita, que não diminuíram os investimentos em ciência em seus Estados, embora tenham priorizado editais tecnológicos. Outro dia, um desses três falou em Estado tecnológico, um outro, médico, durante a pandemia, se apoiou nos melhores ecólogos especialistas em modelagem matemática, que são da UFG, para definir o que e quando fechava ou abria, e enfrentou os negacionistas.
Ou seja, ciência sem política sempre existiu, dentro e fora de governos autoritários, e tanto de esquerda quanto de direita. Entenda o mundo e tire algo de lucrativo disso, é uma fórmula que sempre interessou ao sistema. Além disso, os cientistas também não são os bons samaritanos que combatem a ignorância do mundo. Uma parte substancial de nós trabalha para o capital, para produção de produtos patenteados que vão nutrir empresas, com maior ou menor benefício ao coletivo social. O saber, é, por natureza, acrítico à sua consequência social! E esse ponto é essencial. Em governos autoritários, SÓ existe a ciências sem política e sem pensamento crítico. E é sobre isso esse texto: a diferença entre ideologia e pensamento crítico.
“Too woke!”, foi o que afirmou Trump ao decidir mudar as mostras dos Museus do Smithsonian. “Woke”, “desperto”, era um termo da comunidade negra americana que clamava aos seus que aprendessem mais sobre sua história e a condição do racismo estrutural. Apropriado pela extrema direita e usado pejorativamente, significa “tendenciosamente ideológico”, por esclarecer o significado dos fatos. Claramente, Trump se incomodou com o fabuloso Museu do Homem Afro-Americano, que fala verdades demais sobre a escravidão.
Ao censurar uma mostra científica, alegando conteúdos ideológicos, qualquer governo está sendo, hipocritamente ideológico. O que não querem, não precisa de muita explicação aqui, é que a narrativa de uma nação feliz e inclusiva deveria sobressair à do país onde brancos eram, são, e pretendem continuar sendo, opressores. Mas vamos explorar os museus gratuitos do Smithsonian na cidade de Washington DC para além desse caso.
Em minha primeira impressão, como alguém que trabalhou quatro anos dentro do Museu de História Natural de Londres e tomava café no British Museum, não gostei. Mas não gostei por um motivo muito claro: os museus europeus pressupõem bastante cultura dos seus usuários para que sejam apreciados, à parte mostras específicas para crianças. Acho, e é acho, minha impressão, que os Smithsonianos me pareceram didáticos demais, simplificando demais as coisas, mas, obviamente, essa é a grande qualidade! São museus para qualquer um!

Talvez ao visitar o Museu de História Natural do Smithsonian, eu esperava que alguma menção sobre a caça do pangolim, profundamente afetada pela pandemia fosse discutida na plaquinha. Pedir demais para um museu que mostrava o pangolim para quem nunca viu isso na vida, não é mesmo?
Explicado isso, vamos explorar o Museu de História Natural, para estar centrado em um museu focado em hard Science, onde influências políticas entram com menos impacto. Mesmo?


As vedetes, no lugar das vedetes de qualquer Museu! O fascínio pelos dinos sustenta muitos desses museus mundo afora.
Bem, como todos demais grandes museus de História Natural, seu cartão de visita é centrado nos grandes animais africanos e os dinossauros. Espécimens espetacularmente dispostos para lhe causar uma exata percepção de escala e tamanho, como um elefante na entrada do prédio (que é extraordinário). Embora que os tamanhos das seções não são proporcionais aos continentes, ou `a importância desses ou dos grupos taxonômicos para a biodiversidade planetária. Para os EUA, tem que ser proporcional ao interesse leigo, Mas tudo bem, são bem-feitos e bem explicados, e impressionantes.

Qual o tamanho de um elefante em um salão monumental de um palácio da ciência?
Aí, no tempo que eu estava lá, algo extraordinário me aguardava numa próxima galeria: uma exposição sobre a África antropológica, focada na relação entre natureza e a religiosidade dos povos originais, e suas tradições alimentares nativas. Seções complexas mostrando mercados no Quênia e Uganda e até, pasmem, detalhamento das religiões afro-brasileiras! Muito além da África dos safaris para brancos e ocidentais que possam pagar, estava lá a África dos africanos, e o que eles fazem com toda a diversidade cultural e biológica desse Continente negligenciado. Bem, acho que é essa a contribuição do Museu de História Natural para o “too woke”, não te parece?

A África com os africanos, no Museu de História Natural! Fantástico e inovador e, talvez too woke!.
Não acredito que as mostras descritivas da fauna, flora, nem mesmo das mudanças climáticas sejam afetados pela censura de Trump. Mas mostrar que a África pertence aos africanos, e mostrar a falta de infraestrutura, pobreza ou realidades humanas ali presentes, tenho certeza de que irão.
Um museu para você viajar nas belezas idílicas de um mundo bom, e não para você entender o mundo real, que sua pouca educação formal não lhe permite entender sozinho. Claramente, essa é a mensagem. E, parte dos cientistas, vão preferir assim, acredite.

Eu, governo, quero que entendam os povos originários, sua dispersão pelo mundo via escravidão, e o valor de sua religião que levou séculos para ser demonizada no Ocidente? Muito menos sua relação com a natureza, melhor que a nossa!
Mas qual é a real contribuição dos cientistas para a ignorância política de seu tempo? Aqui, trago o segundo tema do dia, o enviesamento pessoal de especialistas que, no fundo, só entendem de suas especialidades, e ousam extrapolar conhecimento reducionista e aplicá-los em escala humanitária. Nominalmente, quero falar de cientistas e argumentos pseudocientíficos para racismo.

Nina Rodrigues, de pai da Escola Baiana de Medicina Tropical, a primeira do mundo, para um eugenista que associava traços étnicos de povos empobrecidos com a criminalidade. Quis expurgar a Bahia dos negros, os isolando na Amazônia. Qualquer semelhança com a Faixa de Gaza é mera coincidência?
Vamos fazer uma análise simplista e incapaz de causar cancelamento nos tempos atuais: alemães e franceses em grande parte são povos profundamente distintos, todos concordamos? Mas, qualquer um que já fez análise de sua ancestralidade genética e que tenha um pezinho ali, sabe de algo mais: alemães e franceses não são separáveis geneticamente. São europeus distintos dos ibéricos, dos mediterrâneos, dos celtas ou de outras ramificações que distinguem latinos de saxões. Mas, entre eles, são uma linhagem única e inseparável. Ou seja, a profunda separação entre eles é exclusivamente cultural. Alguns cientistas do início do século XX foram induzidos a defender um darwinismo social, distorcendo os dados parcos sobre genética humana da época. Esses, europeus, mas também brasileiros e americanos, favoreciam visões profundamente racistas do mundo. Tais visões foram as bases “teóricas” para as leis contra feios nos EUA, para o nazi-fascismo itálo-germânico, ou para a separação entre bruxos e trouxas no “Segredos de Dumbledore”. Ou seja, cientistas com visão rasa de suas sociedades sendo manipulados para fundamentarem visões segregacionistas e repressoras nas sociedades.

BBC outro dia trouxe a Lei dos Feios, americana, válida até o início do Sec XX. Imagina, não poder ir e vir, se for feio e aleijado. Mas só aleijados pobres. Qualquer semelhança com a narrativa do Segredo de Dumbledore, é a arte imitando a vida, No poster o Primeiro Ministro bruxo alemão (sutileza zero) que acaba apoiando um racista facínora, Grindelwald, e sua intenção de subjugar os trouxas.
Como isso se relaciona com o texto principal? Não te é óbvio? Muitos autocratas não querem acabar com a ciência, a querem mega especializada e compartimentalizada, de maneira que gerem tecnologia e não pensamento crítico e, portanto, uma sociedade progressista e mais justa. Estariam as novas exposições censuradas do Smithsonian fadadas a dar sustentabilidade a tal desastre humanitário? Food for thought!
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