Entomofagia: a realidade global sobre comer insetos e a arrogância conspiratória do ocidente para não aceitar tal dieta.

O chapolin colorado do Chaves é esse aí. Pode comprar como pipoca nas esquinas das cidades mexicanas, ou em um restaurante gourmet com raízes ancestrais. Esses estavam uma delícia. Os comi em Xalapa, Veracruz.

A inspiração desse texto é o artigo de hoje na BBC que copio em partes ao final, e a resistência estritamente ocidental à alimentação com insetos. Importante lembrar aqui, a FAO já estipulou que a possibilidade de um planeta com 12 bilhões de pessoas (cifra inevitável) sem profundas deficiências na dieta proteica, passará pela alimentação com insetos. Não que tu vá ter que comer baratas, nem mastigar perninhas de grilos (algo que adoro fazer quando vou ao México). A entomofagia é a inclusão de insetos em alimentos processados, em especial suplementos proteicos, que seriam mais baratos, mais proteicos, saudáveis e de menor custo ambiental para serem produzidos.

Em grande parte já não estamos tendo problemas graves nesse sentido porque nas regiões mais populosas do mundo a entomofagia (ou artropofagia, já que aranhas e escorpiões entram no cardápio) já é um hábito, inclusive milenar. Regiões com grandes adensamentos populacionais e com fortes práticas ancestrais de comer insetos, por sinal, já mostram com clareza que a coisa funciona para elevar a capacidade suporte (o número total de indivíduos que um ecossistema sustenta) das populações humanas.

Os dados abaixo são de um artigo da Nature, e mostram claramente que da entomofagia, o ocidente nem chega perto. A Ásia é a campeã com 40% da entomofagia global, seguida por México (América do Norte no gráfico) e África. Nós temos muito que melhorar, por sinal.

Não surpreendentemente, as ordens mais diversas ou abundantes são as mais predadas por nós, com besouros, cupins, formigas e lagartas de borboletas na frente, seguidos dos grilinhos e gafanhotos.

A figura 7 desse artigo é a mais impactante, e mostra claramente que há um vazio entomofágico no Canadá, EUA e Europa. Se está estranhando estarmos bem representados nesse gráfico e só ter ouvido falar da bunda de tanajura (rainhas em revoada de acasalamento de formigas da espécie Atta sexdens, que de fato é a maioria que se come aqui), está esquecendo que os indígenas sul-americanos são grandes apreciadores da gastronomia entomológica.

Poderia pensar em clima para a falta de tradições alimentares incluindo insetos, já que são mais diversos nas regiões tropicais? Não creio, pois embora menos diversos, muitas espécies são superabundantes em regiões temperadas, como as Cicadas nos EUA, que aparecem em números extraordinários e poderiam ser comidos pelos indígenas, mas não mais. Aliás, hoje em grande parte do mundo comer insetos da natureza tem um problema a mais: o excedente de agrotóxicos! Motivo principal pelo qual uma revoada de gafanhoto em África não é motivo de festa. Aqueles insetos vão comer sua lavoura mas não pode comê-los, que vão estar entupidos de agrotóxicos acumulados da dieta e da tentativa de pará-los. Mas, mais ainda na realidade atual, por que não seguir as recomendações da FAO e investir em alimentos à base de insetos industrialmente?

Agora, se a maioria da população do mundo já está comendo insetos, na real, por que então o ocidente importa nessa conta? Dinheiro e distribuição. De fato, as duas primeiras fábricas de pó proteico de origem entomológica estão nos EUA. E leis de diversos Estados americanos estão sendo mudadas para incluir insetos na dieta das pessoas, que originariamente, não seria permitido pelo FDA (teremos que enfrentar essa etapa aqui também com ANVISA e, pior, com o lobby do boi – já fui criticado por leitores universitários da veterinária que temem esse novo mercado!). É fato que a capacidade instalada para fazer recursos alimentares industrializados em escala para milhões, os ocidentais têm! E é necessário levar isso ao patamar industrial.

E então, é onde surge o problema com as donzelas brancas. Nos EUA, Holanda, Itália e França está se espalhando uma teoria da conspiração, construída nos porões da extrema direta, segundo a BBC. Nessa conspiração, a entomofagia tem sido apresentada como uma ração de terceira categoria que seria alimentos das massas. Ou seja, mais uma vez, e de forma consistente, embora com motivos difíceis para eu entender, sempre que surge uma solução ambiental de escala planetária, seja no combate ao aquecimento global (conspirações e fakes sobre carros elétricos), ou o problema de saúde (anti-vacina aí), e agora fome, essa turma sabota a viabilização de tais soluções.

Vamos explorar esse “comida das massas”. Primeiro, as massas são as pessoas estruturalmente pobres, a maioria delas no Sul Global, ou seja, quem já come inseto culturalmente e acha isso nada ruim. A “massa” trabalhadora com pouca educação do ocidente não é massa. É ignorante, manipulável, e irracional, mas as massas populacionais globais não são eles. Além disso, comendo como massas, de qualquer forma, eles já estão faz algumas gerações: chama ultraprocessados.

Na Europa, um elemento extra desse delírio está no argumento de que comer inseto seria uma afronta à gastronomia tradicional, um argumento bem nacionalista e pitoresco, dada a história real da circulação de alimentos pelo mundo. Aí me pergunto aos europeus: por que whey proteico derivado de leite, doces, salgados, vitaminas quimicamente preparadas, ultraprocessados com ares fétidos de cultura pop americana, nunca ameaçaram a cultura gastronômica francesa, e agora insetos ameaçam?

Um ponto importante de levantar, os ultraprocessados são também comidas energeticamente mais baratas e produzidas para as massas comerem. E sim, se pensar em concentração e custo em água na produção de calorias, são mais ambientalmente amigáveis, não podemos esconder isso. E sim, ajudam a diminuir a fome no mundo com um preço elevado para a saúde, que os insetos não trariam!

Para fechar o ridículo dessa teoria da conspiração, vamos explorar a gastronomia europeia. Por que franceses que inventaram comer queijo mofado, com cheiro de esgoto, e carne de caça em putrefação (a carne “maturada” original na zona rural francesa era um cervo amarrado numa árvore pelas pernas e estava boa quando ela desprendia dos ossos e o animal caia… ou seja, em franco processo de decomposição) não podem comer insetos? Quer ir mais longe em Europa? Portugueses e seus caracóis ou os crustáceos marinhos removidos de corais postos diretamente na mesa, escargots, cérebro de coelho, de boi, e, no topo da lista de esquisitices, chucrute!

A foto é do blog https://www.verygourmand.com/, em um artigo sobre os ”top 10 des fromages qui puent” – os 10 queijos que mais fedem! Veja o título da página, very gourmand!

Bem, é isso, vai ficando mais claro que há um movimento racial ocidental que nega ciência, nega as interdependências globais das sociedades, e nega andar na direção de soluções. A boa notícia, o Sul Global está vivo e se estruturando. Em um mundo cada vez mais perigoso, somos uma força científica no planeta.


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