
Quais são as criaturas que tememos e cultivamos? Vamos explorar uma delas e outros medos.
A condição sexual e a saúde: a atração está nos detalhes!
O horror e o medo são reações de defesa. Embora a arte explore aspectos muito sutis do nosso medo, questões sociais e familiares, onde parentes próximos podem ser um risco de vida ou bem-estar, como violentadores, atacando de dentro (e os filmes refletem isso com as situações famosas onde o telespectador fica nervoso com o “como o cara se deixou chegar desse perto do perigo!???” É que isso simula situações nas quais o “cara” não entende que o perigo está perto), as figuras pavorosas do cinema, refletem algo mais.
Se entrar no google “scaring criatures” vai deparar com um site chamado “creepy bonfire” (https://creepybonfire.com/) e nele uma reportagem sobre “10 most disgusting creatures in horror movies”. O que 9 entre 10 dessas criaturas tem em comum? Alguma aparente doença e, mais comumente, doença de pele! Se não é a pele doente, como Zelda, a criatura tinha alguma doença grave que refletia na sua aparência, com cabelos ressecados e pele pálida, rosto emagrecido e um pouco amarelado. Essa criatura é descrita como sendo “Afflicted with spinal meningitis, she is bedridden and twisted in pain, with a gaunt, skeletal appearance and haunting moans that send shivers down anyone’s spine”. Bem, isso reflete mesmo nossos maiores pavores reais desde que nos tornamos uma espécie sedentária e grupal: doenças infecciosas que podem ser transmitidas pela pessoa contaminada mais próxima de nós.

Impressão minha ou os personagens de terror tem uns probleminhas de pele?
O estado de adoecimento pode se refletir na aparência como um todo, evidenciando algo errado por dentro, como no caso da Zelda. Em especial em ambientes tropicais, com elevada diversidade e incidência de agentes patógenos, mostrar saúde é muito importante em especial para garantir às fêmeas as melhores escolhas de genes para sua prole. Não é ao acaso que plumagem brilhante em exposição de elevada vascularização periférica é frequente entre machos de aves e mamíferos tropicais. O caso mais excepcional talvez seja o que me levou à Amazônia pela primeira vez, com William Hamilton.
Hamilton queria entender as bases evolutivas do uacari da cara vermelha. Um macaco grande, convivendo com a harpia, ou, se preferir, o “gavião pega-macaco”, e sustentando uma cabeça careca e extremamente avermelhada, ou seja, chamando uma grande atenção. Bem, essa espécie tem um par, da cabeça marrom, que vive nas matas próximas às águas oligotróficas e ricas em taninos do rio Negro. A diferença da distribuição biogeográfica de uma espécie para a outra? A da careca vermelha vive em regiões endêmicas de malária. Assim, a hipótese (nunca comprovada) é que para sustentar uma atraente careca irrigada, o macho deveria ser resistente à malária, uma condição mais que desejada! Diversas espécies mostram o sangue na superfície da pele exatamente como uma forma de evidenciar capacidade de permanecer saudável em um ambiente rico em doenças das mais diversas.

Tem que ter grande vantagem evolutiva para ter a aparência de uma lanterna peluda em uma floresta onde a maior ave de rapina depois do condor vive atrás de macacos!
Fonte – https://www.wikiwand.com/it/articles/Cacajao_calvus
Assim, ser capaz de diferenciar visualmente um genótipo susceptível a doenças é um caráter evolutivamente estável e previsível em vertebrados. E mais ainda, no nosso caso, a detecção da doença não deve estar restrita a um humano doente, mas sim à doença por perto, dado que a maioria das doenças infecciosas que nos afligem tem origem em outros animais. E daí, surge em grande parte, nossas lendas pavorosas de criaturas assassinas. Ok, tememos predadores, mas cada vez menos, dadas as condições de proteção que a tecnologia e a vida gregária nos deu. Diante disso, por que diabos ainda criamos seres temerários imaginários que podem nos atacar? Memórias coletivas de uma época vulnerável à predação? Talvez, mas não só!
Veja o caso espetacular do chupacabra, um predador de galinhas temerário e cheia de lendas sobre sua perversidade. Essa lenda entrou no Brasil recentemente, e é enraizada na América Central e no sul da América do Norte. E lá, de fato, alguns chupacabras foram visualizados e até capturados. São criaturas pavorosas, como devem ser … os coiotes tomados de sarna (Sarcoptes scabiei). Sim, uma das mais duradouras lendas latino-americanas de criaturas terríveis, é uma animal carregando uma enorme carga parasitária de um ectoparasita que pode transmitir para nós! Repudio ao organismo tomado por parasitismo entra no hall dos nossos medos inconscientes. Vamos explorar um pouco mais alguns aspectos dessas condições.

O chupacabra capturado e morto no Texas, um coiote doente! Ainda que fácil de identificar e diagnosticar, foi exibido por anos como uma criatura fantasmagórica! Foto de Kristen Cabrera do Texas Standard: (https://www.texasstandard.org/stories/cuero-texas-chupacabra-ranch-cryptid-sightings/)
A tripofobia, o mais extremo dos medos de doenças – aqui aparece uma síndrome das mais curiosas do mundo, para mim, pelo menos. O termo vem de “trypa” (furos, ou buracos) e phobos, fobia, medo. Na real, a pessoa com essa síndrome teme estruturas circulares repetidas, e podem chegar ao extremo de sentir pavor com jabuticabas no pé! Numa busca rápida, não se encontra muito sobre isso, mas há uma pista no wikipedia:
“Trypophobia is poorly understood by the scientific community. In the few studies that have taken place, several researchers hypothesized that it is the result of a biological revulsion, causing the afflicted to associate trypophobic shapes with danger or disease, and may therefore have some evolutionary basis”.

Deu medo ou fome? Tripofobia é uma condição que certas imagens vão causar profundo mal estar. Das que conheço, essa é uma das menos severas, e não vou reproduzir as piores em respeito ao meus leitores tripofóbicos!
Ou seja, não entendemos, mas faz sentido que alguém queira se afastar de formas vazadas esféricas, as quais são recorrentes em infecções fúngicas de pele, em processos de decomposição corpórea, ou em alimentos tomados por fungos. Condições capazes de causar infecção e adoecimento. Seja qual for a origem da síndrome, continua, para mim, na lista dos medos com origem evolutiva na defesa contra parasitismos, doenças e riscos de infecção.


Micose e alimentos estragados: os tripofóbicos se infectariam menos? Os franceses que dominaram a arte de apodrecer queijos para os comerem, são um post a parte!
Carecas doentes, carecas saudáveis – Em um mundo moderno e com boa parte desses riscos mantidos sob algum grau de controle, talvez vivamos com um efeito colateral desses medos instintivos das doenças: o preconceito. Vamos começar com as carecas e chegar no etarismo. O ponto inicial é o por que tantos homens se sentem mal e inferiores ao ficarem carecas, e como isso se associa a uma condição desfavorável sexualmente? A calvície masculina reflete duas condições: adoecimento por estresse ou idade.
O careca adoecido é um sujeito sob extrema ansiedade e estresse. Curiosamente, um estudo recente sugere que ansiedade masculina como um elemento de baixa atratividade sexual, assim como a gentileza (não sou eu que estou dizendo). Homem bem-sucedido é social, confiante e divertido – confiança é saúde. Assim, o homem ansioso e estressado não está dando conta do recado, e fica menos atraente. Se isso chega ao ponto de perder pelos, vai evidenciar essa condição de risco de baixo sucesso reprodutivo associado ao infeliz. Tirando sarna, todas as manifestações de adoecimento que causam perda de cabelos são autoimunes, alguns tipos de câncer ou síndromes de estresse. Essa careca normalmente é assimétrica e parcial, sendo que a condição de assimetria é um forte sinalizador de saúde precária e condições reprodutivas temerárias.

A assimetria é um aspecto visualmente evidente da calvície patológica.
E os carecas saudáveis? Por outro lado, e de forma quase paradoxal, há o careca genético, uma expressão de um caráter sexual secundário tipicamente masculino, ligado a altas doses de testosterona no sangue. Esses tem um gene heterozigoto ou dominante para a calvície, que se manifesta com a expressão de uma forma de testosterona (a di-hidrotestosterona) que afeta os folículos capilares, os tornando mais finos a cada ciclo de crescimento, até que não nasça mais.
Um aspecto curioso, e aqui fala um orgulhoso careca hereditário (uma característica que os meus Ribeiros carregam como se fosse um Brasão de família, somos uma família de homens carecas orgulhosos), é o imaginário da queda do cabelo, explorado pela indústria do combate à calvície. Nós, os saudáveis, nunca perdemos cabelo, nunca vi um fio caído no travesseiro. Eles diminuem e somem, não caem.
No entanto, mesmo se fizer uma busca específica para esse tipo de calvície, vai descobrir duas coisas: 1) calvície hereditária é uma marca racial, mas tem nome de doença (alopecia androgenética); 2) independentemente de ser um caráter sexual secundário associado à elevada capacidade reprodutiva, é vista pela sociedade (e pela indústria farmacêutica) como uma doença, que não é.
Uma característica genética herdada de forma bem-sucedida por parte da população deve refletir sucesso reprodutivo. Bem, sabemos o que a testosterona causa, e seu sucesso relativo comparado com um topete capilar. Ambos são, de fato, indicadores de saúde. Mas como uma característica que poderia ser confundida como sinal de adoecimento pode ter evoluído? Há dois sinais muito claros de que não é adoecimento e perceptíveis pelos pares das espécies de primatas que tem isso (nós, os uacaris e creio que mais uma ou duas espécies do velho mundo): a simetria e a saúde dos pelos restantes do corpo.

Coloquei uma foto minha para mostrar como a calvície hereditária em nada se relaciona com adoecimentos e em nada reflete envelhecimento para além do sucesso reprodutivo. Mas o que move o mercado da discriminação capilar?
No entanto, há um outro aspecto sutil: se fica careca depois de uma certa idade. Embora a calvície como um caráter sexual secundário possa refletir longevidade, se um dia foi útil para escolhas sexuais em condições primitivas, nos dias de hoje, se torna um aspecto da cultura popular relacionada ao etarismo. Não há jovens carecas, né? Em um mundo com diversos valores mais importantes para a sustentação do tecido social que o sucesso sexual ou a superioridade de um traço evolutivo que garantiria maior segurança em um mundo não tecnológico, será que estamos permitindo reações primitivas nos tornarem discriminatórios a certos grupos?
Se pensar cuidadosamente nos aspectos repugnantes que listamos acima, será que em parte eles não poderiam ser associados à velhice? Pele ressecada, frágil, dificuldade de movimento e visão? Poucos cabelos? Sabemos que gente preconceituosa é gente movida por impulsos instintivos primários. Será que nossos medos são hoje fonte de problemas maiores que suas causas?
Mais que pelos, as lesões de pele são condições graves e preocupantes, com as mais diversas causas e de difícil diagnóstico. Será que no mundo moderno seguiremos discriminando pessoas pelo que elas estão acometidas, invés de as cuidarmos? A infecção em um mundo controlado não é mais um evento em si perigoso o bastante para sustentar medo do próximo, não é mesmo? Por sua vez, não ser preconceituoso hoje em dia, em uma sociedade civilizada, é sim uma escolha, tão simples como ir ao banheiro e não fazer as necessidades na frente dos outros.
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