
Vivemos cercados de verde ou de concreto, mas qual é o motivador desses contrastes? Talvez, não termos recursos para manter jardins luxuosos, ao mesmo tempo que perdemos afeto pelos quintais espontâneos, orgânicos e funcionais do interior.
Começo uma série de textos de férias, frutos de minhas horas em casa, parte delas lendo ou vendo documentários. Hoje, em particular, preso no ar-condicionado, pensando em como cada vez mais passaremos a ficar dias trancados como ficam as pessoas de latitudes altas, quando há frio extremo. Aqui, ou em Rockville, onde morei, nesse mesmo dia, pessoas estão dentro das casas acondicionadas a 20oC, por causa de temperaturas extremas, embora opostas. O problema? Aqui, a minoria tem esse privilégio, do ar-condicionado. E pior, quanto menos rica é uma vizinhança, menos árvore, menos verde, mais calor. Como pode isso? Por que as pessoas com menos recursos não plantam, não cuidam mais de seus quintais e passeios?
Vamos falar dos efeitos urbanos da vegetação sobre essas temperaturas, mas sob a ótica socioambiental, tentar lidar com essas incongruências. Para começar, a UFABC soltou um trabalho sobre as diferenças de temperatura entre a zona Sul e as favelas de São Paulo, mostrando absurdos 15oC de diferença!

Quanto mais pobre, mais quente? Por que chegamos nisso?
O mapa de calor da cidade mostram a estúpida segregação climática na maior cidade do país.

Segregação climática e arbórea em São Paulo.
Falando do país, vamos contextualizar algumas de nossas cidades nos Biomas onde estão inseridos. São Paulo está no coração da Mata Atlântica, e reside aí as suas enormes árvores e uma das arborizações mais exuberantes do país, assim como Rio de Janeiro e outras cidades “florestais”. O clima e o solo vão favorecer a arborização. Belo Horizonte está na transição do Cerrado para a Mata Atlântica, e só por isso, embora muito verde (ou não, veremos), manter cobertura arbórea aqui já é mais difícil. Agora, imagina no semiárido, ou no nosso novo árido, nova faixa climática manifesta em cinco municípios do sertão nordestino.

The Guardian se interessou pelo novo normal, uma região árida no Brasil. Ela vai expandir, como o semiárido está expandindo. As cidades estão adaptadas? Acho que não.
Se sobrevoarmos BH pelo Google Earth, vemos algo muito similar. Sem entrar nas regiões mais pobres, vamos sobrevoar dos bairros nobres para os mais tradicionais da classe média. Nesse gradiente social, já vemos uma diferença dramática na vegetação urbana. Os bairros Mangabeiras, Serra, Cidade Jardim-Lourdes, junto com o hipercentro, são muito arborizados. Já, o Santa Efigênia, Santa Tereza e Cidade Nova, não.


Mais rico, mais verde. As raízes culturais por trás desse contraste não são triviais.
Não se trata de bairros em situações problemáticas em nenhum outro aspecto, mas esse. Suas populações são educadas, tem saneamento básico, comércio de qualidade, boa renda per capita. Talvez, então, haja uma questão cultural desenhando essas vizinhanças áridas. Acho que a classe média mineira (ou brasileira, em grande parte) progrediu vindo de uma origem rural e suburbana, mergulhada em quintais tradicionais, normalmente repletos de plantas funcionais, ou seja, plantas para comida ou remédios! Ao longo das gerações urbanizadas, tal conexão se perdeu, sem que muitas pessoas adquirissem interesse por outro tipo de valoração da vegetação urbana, naturalmente assimilada pelas classes mais altas: o paisagismo e o ajardinamento. Claro, aqui há nuances e variações de pessoa a pessoa, mas meu ponto é coletivo, a escala de bairros áridos e ajardinados.


Conhecimento e o verde. Aqui dois exemplos de São Paulo: o Centro de Ensino e Pesquisa do Albert Einstein, Instituição privada; ruas do campus da USP, Instituição pública. Faz parte dos centros de pesquisa mundo afora, em grande maioria, um campus com algum grau de ajardinamento, proporcional à riqueza de cada Instituição, mas, sempre presente. O estético faz bem ao saber, sabemos disso!
Daqui para frente queria discutir as dinâmicas da coexistência humana com o ajardinamento de paisagens, um assunto no qual volto sempre. Em especial, queria explorar a relação urbana com jardins de larga escala versus pequenos quintais, considerando diferentes países com diferentes histórias sociais, educacionais e econômicas, na tentativa de entender por que diabos a nossa classe média aceita viver em um inferno asfáltico (desculpe o trocadilho). Vou começar discutindo algumas visões do famoso paisagista da TV inglesa, Monty Don, numa série sobre jardins da Europa mediterrânea, em países do leste e oeste europeu.

A visão euro-centrada dos jardins e quintais definem mais da nossa estética paisagística que nossa óbvia tropicalidade. Na Europa, ambos são planejados e contidos em delineamentos moldados pelas plantas da “moda”, e refletem a uniformização das sociedades e das classes médias.
Em particular, vou explorar sua excursão pela Croácia, onde eu sempre achei que haveriam lindíssimos jardins, só por serem contrapostos à Itália ao longo do mar Adriático. As origens culturais e até sanguíneas desses países se sobrepõem demais para termos a Itália como um grande jardim, e a Croácia não. E, de fato, não é assim, embora tenha uma diferença cultural recente: a falta de interesse geral da população croata pelo ajardinamento. Mesmo após passar por lindíssimos lugares, Don, como um inglês que fez a vida no Show Biz da jardinagem (um mercado milionário) atribuiu ao comunismo a falta de interesse dos croatas por ajardinamentos e beleza estética. O que parece verdade pela baixa visitação às áreas públicas, segundo ele.

Grandes parques e áreas verdes são mantidas em função do interesse coletivo por esses espaços.
Bem, por aqui, nunca fomos comunistas, muito pelo contrário. Ainda assim, o desinteresse pelos jardins urbanos, grandes e públicos, ou os particulares e pessoais, é enorme no Brasil. Em alguns ambientes urbanos onde o cinza luta com o verde, há quase que um repúdio às plantas, raízes, galhos, e riscos de queda, ou riscos de bichos. Ou assalto. De fato, o interesse por praças e parques aumenta se a segurança aumenta. Em bairros com problemas de criminalidade crônica, as áreas verdes são, obviamente, evitadas. Enfim, uma notável rejeição à natureza, com um claro desinteresse em manter suas plantas, e um interesse gradual em áreas verdes públicas, dependendo de outros fatores sociais.

Gostamos do verde e das áreas públicas ajardinadas, e é bom que gostemos. No entanto, esse apreço diminui com aumento da criminalidade, ou queda de índices de educação ou renda per capita, em qualquer lugar do mundo.
As bases disso não está na ideologia política, embora possa refletir a posição geopolítica de um dado país. A Croácia na URSS não era diferente da nossa posição nas Américas capitalistas, em especial após as diversas ditaduras militares dos anos 60, impostas pelo controle geopolítico americano do pós-guerra, que seguiu até início do Século XXI.
Aqui, vivemos um grande e complexo estado de conflito de valores, talvez como também deve ser nas marginalidades da antiga URSS e de qualquer lugar do mundo marginal de um país “sede”. Nesse contexto, por um lado, as elites econômicas sob influências culturais excludentes, se alimentam de modelos clássicos de ajardinamento e de conceitos de beleza urbana, nas quais se assume que a vegetação luxuriante é um sinal de status e saúde e riqueza. Por outro lado, os jardins funcionais das casas das pessoas, riquíssimos de plantas nativas (ou, no caso do Brasil, exóticas ornamentais africanas e latino-americanas – em especial mexicanas), em grande parte com valor nutricional ou medicinal, e ligadas às tradições etnobotânicas das mais lindas. No meio, a classe média urbana perdida entre esses dois mundos verde e distintos.


Quintais funcionais são um misto de jardins e pomares. O problema da classe média urbana brasileira é a soberba de achar cafona tal formatação tão orgânica de seus espaços existenciais. Perdemos o respeito pelo tradicional mundo verde de plantas que geram comida, sem termos recursos para fazer jardins esteticamente compatíveis com o regramento elitista.
Os quintais são a confluência dos valores culturais de diversos continentes. No nosso caso, dos nossos ancestrais sul-americanos, africanos, e um tanto das culturas europeias marginalizadas das regiões mediterrâneas da Península Ibérica (em um cenário em que Inglaterra, França e Itália sempre ditaram os princípios estéticos do continente). Os ajardinamentos, não!


Há uma estética própria dos nossos quintais, que algumas vizinhanças ainda valorizam e mantém. Outras, arrogantemente, as rejeitam e não colocam nada no lugar.
Em Belo Horizonte, a Praça da Liberdade, o Parque Municipal e diversos outros jardins históricos urbanos, assim como em São Paulo, foram feitos por franceses, nos moldes dos ajardinamentos daquele país, ou inspirados em Olmsted, dos Estados Unidos. Mesmo que Burle Max tenha nos trazido outra dimensão do ajardinamento tropical, esse também sempre foi elitista. Lidava com os saberes científicos e botânicos sobre a nossa flora, mas buscava os elementos florestais puros, recriando simbolicamente florestas intocadas em seus jardins tropicais. Não incorporou na estética nacional os quintais das “doninhas”, seus valores profundamente humanos e etnobotânicos. Afinal, nos trópicos, fomos também ensinados a temer e não amar a natureza selvagem, não é mesmo?
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