O que e quem escolhem o que você vai ler: divulgação científica em tempos de concentração de poder e dinheiro em mãos podres OU, Porque estamos falhando em esclarecer a sociedade sobre quem somos e para que servimos, nós cientistas.

Os livros inteligentes que escolheu ler, você de fato os escolheu? E, serão eles de fato…inteligentes?

Já reparou que separamos as pessoas em diversos grupos antagônicos? Um curioso é o das pessoas que gostam de ler, grupo mínimo e excêntrico, e a grande maioria que não gosta. Aí, de repente, alguém do grupo de quem não lê muito, vem falar de um livro muito legal que está lendo. Nos dias seguintes, várias pessoas desse grupo estarão lendo o mesmo livro, e você, que lê com mais frequência, vai descobrir que é um bestseller fabricado. Muitos desses são, curiosamente, livros de divulgação científica.

Sempre estranhei, confesso, bestsellers de divulgação científica. Quando um bom livro de divulgação de ciência é lido, ele sinceramente precisa causar reflexão e reconstrução conceitual no sujeito leigo, e não frisson e debates enormes. Por isso mesmo me estranhava muito o boom do debate que o Gene Egoísta de Richard Dawkins causou. Um livro que conceituou a nossa ignorância sobre o verdadeiro papel da grande massa genômica que não produz proteínas, e lhe ajustou a uma explicação que hoje sabemos ser uma grande falácia pseudocientífica, curiosamente construída por um cientista. Segundo Dawkins, já que tudo é sujeito à seleção natural, não produzir uma proteína que seria em algum momento selecionada pelo ambiente, é uma estratégia de sobreviver, evitando expressar um fenótipo (uma forma ou função) que pode perder na seleção! Um gene que não expressa nada e é carregado pelos que expressam!! Esse era o gene egoísta, a “massa cinza” do genoma não gerador de proteínas. Hoje sabemos que essa massa até então desconhecida é uma elaborada maquinaria de produção de pequenos e diversos RNAs (RNA não codificantes de proteínas), com as mais diversas funções adaptativas para as células, e para a própria regulação da expressão dos genes que de fato guardam os códigos das proteínas. Para além dos conhecidos RNA transportadores e mensageiros, temos MicroRNA, RNA longo não codificante, RNAs nucleolares e muito mais.

O meu Gene Egoísta era essa edição. Obrigatório para alunos da Biologia. Uma grande farsa científica, brilhantemente construída por um manipulador perigoso.

Então Dawkins ficou famoso por olhar para o universo interior da vida, ver o escuro (=entender nada, que era o que a ciência na época tinha), dar o nome de “infinito” e explicá-lo de forma quase mística. Um poder de persuasão fantástico, que depois de um tempo usou para acender a rejeição cristã americana à ciência, com seu livro ultrajante, e profundamente desrespeito, o “Deus, uma Ilusão”. Não é ultrajante pela blasfêmia, mas pelo grau de desrespeito e arrogância com que definiu a grande maioria da humanidade que crê em algo que chamam de deus: são burros, simples assim. Não é exagero dizer que com esse livro ridículo, ele usou a ciência contemporânea ocidental para agredir culturas, as tradições e a diversidade de pensamentos não ocidentais. O que fez foi dizer que o que não é tecnológico e racional, nos moldes ocidentais, é lixo completo. Conseguiu com isso diminuir a ciência dentro do próprio mundo ocidental (que fora da Europa e EUA quase ninguém leu essa porcaria, imagino), e criar a semente da cisão anti-científica que emoldura a extrema direita nacionalista até hoje.

Como jogar toda a civilização contra a ciência com a publicação da manifestação mais absurda de discriminação e separação entre ciência e cultura. Para Dawkins, o que não é ciência, é lixo. Bem, nunca achei boa coisa um sujeito que tinha a cara de pau de, no café do seu College, em Oxford, olhar com arrogância para a mente mais brilhante que aquela universidade viu em décadas, William D. Hamilton. Bill, na sua bondade e simplicidade, apresentou Dawkins a mim, e ali entendi que tinha algo errado nesse frisson todo!

Mas onde quero chegar com isso?

Outro aspecto de grande relevância para entenderem onde quero chegar, é a percepção do cidadão comum sobre manipulação. Muitos nos tempos de hoje acham que a imprensa oficial está lhe manipulando, porém, claramente não! As imprensas oficiais têm lados, claro, e são declarados, são relatados em editoriais, em manifestações públicas de opiniões. Até por isso, por expressarem lados e trabalharem dentro de limites morais do jornalismo, da divulgação e acesso ao conhecimento, não são esses caras que estão lhe manipulando! E, a despeito de terem lados quanto à opinião sobre os fatos, jornais oficiais não são autorizados, e por mais de um mecanismo de autorregulamentação e de regulamentação cruzada, a mentir fatos. O que descrevem como fatos, fatos são!

Bem, os divulgadores de ciência também não podem, moral e impunemente, distorcer o conhecimento científico. O que apresentam é, em grande parte, uma derivação do conhecimento científico prevalente. Mas, será? Se na divulgação científica, alguém se apropriar do conhecimento e transformar especulações em fatos para o leigo, só vai vender se for empoderado por um sistema econômico agressivo e uma distribuição massiva de sua obra, amparado por um marketing milionário, com segundas intenções ideológicas. Ou seja, só circulará opiniões profundamente enviesadas da ciência se agradar com isso algum interesse poderoso. E, tristemente, é o que mais acontece, desmoralizando a ciência e a percepção da academia de sua divulgação.

Adorou esse livro? Acredito que estivesse cansado ao final, quando ele, depois de um texto que vai te enquadrando intelectualmente em um paradigma construído para crer no texto cegamente, o cara joga no lixo sermos apenas um animal na natureza!! Surpreendente se algum biólogo evolutivo caiu nisso, a não ser pelo cansaço e sedução do texto, construído para seduzir, e não para educar. Já começa a desmoronar.

Foi assim que Dawkins criou e perpetuou a ideia equivocada do gene egoísta e, mais recentemente, Y Noah Harari, no seu bestseller Sapiens, convenceu milhões, inclusive biólogos evolutivos distraídos, de que a seleção natural não afeta mais a espécies humana! Diferente da imprensa oficial, divulgadores financiados não declaram lado, não explicitam as hipóteses que perseguem, percebe? Como divulgadores científicos, dão aulas públicas por diversos veículos, e o que dizem, se tomado como dito por um autoritativo professor, vai ser assumido como fato, e vai manipular as mentes leigas mais do que as notícias jornalísticas, em uma escala gigantescamente maior.

Agora o grande podrão, revelado pelo The Guardian: seus heróis eram, no mínimo, machistas, no máximo, pedófilos! O Clube insano e perverso de Epstein, chegou, várias vezes, na sua estante!

E sabe que é pior? Essa galera pseudo-divulgadora de ciência vinha sendo financiada pelos amigos do Epstein! Ou seja, do grupo dos poderosos pedófilos perversos que controlaram o capitalismo ocidental por décadas, e que ainda estão aí! Se essa turma quer algo mais do que uma carona na reputação de gente inteligente que eles promovem, ou se têm uma agenda de manipulação das … vou criar um termo: “as elites das massas”, não saberia dizer. O fato é que não me estranhou, embora me arrepiou a nuca, ver que sim, há uma agenda do poder para a divulgação científica, mais perversa e séria que imaginávamos!

Estarrecedor, é o mínimo! A única coisa que faz sentido é Bill Gates ter começado a divulgar ciência também!! Um nó nas mentes bem intencionadas começa a se formar – o que objetivam essa gente?

Lançaram aos céus as figuras que agradariam a grupos intelectuais mais clássicos, mas também à elite mais à esquerda, e aqui, uma de suas criações financiadas, o cretino do Chomsky! Sim, o famoso linguista de esquerda, libertário do capitalismo opressor americano, não passa de um potencial pedófilo e assumido sexista, que frequentava as mesmas festas que os seus “declarados” detratores. Por trás dele um grande parceiro das orgias criminosas de Epstein, Brockman, quem também promoveu Dawkins, Jared Diamond (não vou criticar Jared que daria um post em si só, um dos melhores enganadores, usando riscos de pandemias para promover o imperialismo americano de uma forma muito inteligente e sutil) e muitos outros. Todos que, surpreendentemente, todo mundo que resolve ler algo mais inteligente, escolhem para ler!

Alguém com essa biografia, que encantou e fascinou pensadores da esquerda do Global Sul (outro termo complicado demais e fabricado, que talvez um dia desconstrua aqui), tem as falas mais machistas, pedófilas, perversas nos arquivos do Epstein. Um dos que continuou amigo do cara depois de sua primeira condenação por pedofilia!

Isso nos põe diante de grandes dilemas sobre como lidamos com o papel social da ciência nas sociedades contemporâneas democráticas. Insistimos sempre que governos devem tomar decisões baseados na ciência. Nós cientistas, temos mecanismos legítimos e eficazes para fazer isso quando temos a imprensa oficial e livre, ao lado do conhecimento. Assim o foi no combate às mentiras divulgadas por governos e grupos mal-intencionados na pandemia, depois com as vacinas e, já por décadas, nas questões de aquecimento global e suas consequências. Vários de nós damos entrevistas cotidianamente, para esclarecer o público.

A maioria de nossos laboratórios, em especial depois da crise de confiança criada pela extrema direita e ampliada na pandemia, têm seus canais para divulgação das suas pesquisas nas redes sociais. As agências financiadoras cobram explicitamente que divulguemos nossas pesquisas. No entanto, a tia, pai, vizinho de quais de nós pesquisadores viu seu “pitch” da sua pesquisa e veio te perguntar sobre o que você faz? Por mais didático que um pesquisador-professor possa ser, quem de fato conseguiu atrair a atenção dos seus familiares mais próximos sobre suas pesquisas? Acho que poucos. Claro, fazemos o que dar, se olharmos para a divulgação científica oficial, a Ciência Hoje da SBPC, o jornal da FAPESP, e revistas como Mongabay, ou Scientific American, essas tem canais muito profissionais e isentos de divulgação. Mas aí, vem o próximo problema: servem a quem? Acredito que para nós mesmos e para jovens que aspiram serem cientistas nas suas escolhas de carreira. Não para leigos. Assim, pergunto-me se estamos pregando para convertidos e em nada explicando a sociedade sobre o que somos e para que servimos.

Temos excelentes veículos profissionais de divulgação científica. Quantos leigos de fato leem divulgação científica?

Enfim, é natural que a busca seja sempre pelas versões floreadas, onde conhecimento mescle com algum grau de lazer mental. Alguém que trabalha mecanicamente vai curtir aprender algo a mais em uma área que não conhece, se devidamente estimulado para isso. No entanto, e cada vez mais, esse estímulo é pelo absurdo e o surpreendente, onde inclusive é difícil lutar contra o enorme peso dos… alienígenas do passado! Se está difícil fazer gente ler sobre ciência, podíamos ao menos assistir documentários, mas mesmo dentro desse formato, a desinformação vence. Fui comparar esse programa do History Channel com o meu preferido, “Parasitas Assassinos” (Monsters Inside Me) do Animal Planet.

Parasitas Assassinos X Alienígenas do Passado! Façam suas apostas!

Ambos deveriam caber na mesma categoria, de lazer educativo. Porém, pedi ao Gemini para comparar os dois programas, e veja isso:

  • Alienígenas do Passado (History Channel):
    • Audiência e Longevidade: A série é um ícone do History Channel, exibindo sua 20ª temporada em 2024 e gerando spin-offs como Ancient Aliens: Origins. A audiência é alta e sustentada por maratonas frequentes, explorando a curiosidade por teorias da conspiração.
    • Perfil: Focado em pseudociência e arqueologia controversa, atrai um público amplo interessado em mistérios e teorias alternativas, frequentemente debatido em fóruns da internet.
  • Parasitas Assassinos (Discovery/Animal Planet):
    • Audiência e Estrutura: Também possui um público fiel, porém mais nichado, focado em documentários de terror médico e biologia. A série chegou a temporadas avançadas (citadas até a 8ª temporada em plataformas de streaming como o Prime Video).
    • Perfil: Atrai espectadores interessados em medicina, biologia e casos “reais” de infecções, com uma abordagem mais documental e menos especulativa que Alienígenas do Passado. 

Conclusão:
Enquanto Parasitas Assassinos é um sucesso sólido dentro do gênero documental de nichoAlienígenas do Passado opera em uma escala maior, funcionado como um programa de alto engajamento pop que gera alto volume de busca e maratonas contínuas

A minha conclusão – estamos nos afundando em um mundo de confusão, alienação, superficialidades, e nem nós, cientistas e educadores, parecemos ter a capacidade e escala de ação que possa reverter isso. Para mim, isso é a materialização do Apocalipse Zumbi. Já está aí, já contaminou uma grande parte da humanidade. Se os governos ocidentais saírem das mãos dos poderosos e voltarem ao povo, podemos ter uma chance de reverter isso politicamente, do contrário, tomemos cuidado.

Serão os leitores de divulgação científica avançando?


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