
Onde surgiu a gripe espanhola, e porque levamos quase um século para ter isso divulgado?
O que vou descrever sobre a interferência política na ciência não é a exceção dos tempos atuais. Se pensar que Israel ocupou ilegalmente Jerusalém no ano que eu nasci, 1967, eu não sei entender o mundo fora da excepcionalidade que os esforços para controlar as sociedades e mentes, surgido na guerra fria, impôs ao mundo. Todo esse processo ideológico está na base dos impérios globais que nos nossos dias dominam de forma soft outras nações soberanas, num balanço que vai se quebrando e, como consequência, impondo mais e mais narrativas mesmo no campo da ciência.
Nos EUA pós-guerra, a ciência se reinventou e se tornou de fato internacional e única, uma fenômeno pós-colonial do Sec XX. A partir dessa reinvenção que a China pôde, por exemplo, se tornar uma das grandes lideranças atuais. No entanto, misturar imperialismo capitalista com o desenvolvimento científico foi, dizem, uma inevitabilidade civilizatória, a qual se tornou a essência contraditória a todos os valores que a ciência ocidental desenvolveu ao assumir os EUA como sede, após a destruição da Europa na II Guerra.
Vamos explorar cinco exemplos de como os governos (imperialistas ou não) manipularam o saber para impor hegemonia científica ou controlar a informação em momentos de crise.
Guerra espanhola e outras pandemias

Sempre me impressionava o tamanho dos bandos de corvos indo dormir nas margens do Rock Creek Park, em Maryland, quando vinha voltando de bike para casa. A abundância excepcional das aves, várias migratórias no Hemisfério Norte é a chave para as gripes A e seu transbordamento para nós
Já trouxe várias vezes aqui que a gripe foi “dada” aos espanhóis porque não entraram na I Guerra Mundial, quando essa pandemia, a pior de todas nos tempos modernos, explodiu. O grande fato encoberto por décadas é que essa foi de fato uma pandemia originada em território americano. Hoje é bem compreendido que vírus da “Gripe A”, da Influenza, é um vírus aviário associado à imensa e de fato impressionante migração de aves entre o norte da América do Norte e o sul dos continentes americanos.
Quando morei lá, achei um livro fabuloso numa caixinha de biblioteca coletiva, chamado “Autumn across America”, parte de quatro livros que um casal de naturalistas amadores escreveu (aposentadoria de sonho), atravessando os Estados Unidos ao logo das quatro estações de 1950, através de suas paisagens mais sensacionais. Li “Outono” nas estações de metrô e nos trens, enquanto carregava minha bike para cima e para baixo entre Maryland e Columbia District. E uma das descrições do mundo natural que mais impressionou foi a abundância das populações de aves migratórias naquele tempo.

A influenza que tanto matou soldados antes sequer de chegarem na Europa, foi um grande cover up da I Guerra Mundial
Esse casal fez uma viagem fabulosa da costa leste à Oeste, pela sua porção mais nórdica do país. Como era outono, enquanto cruzavam o continente, as mais diversas espécies de aves se preparavam para migrar para o sul. O que mais me impressionou foi uma descrição de gaviões migrando sul em Iowa. Horas de milhares de aves predadoras migrando para um inverno mais ameno no sul, refletia uma necessidade mais impressionante: uma grande disponibilidade de presas para tal movimento. Evidentemente, esses movimentos migratórios foram profundamente afetados pelo desenvolvimento industrial e urbanização, com um consequente declínio da densidade dessas migrações.
Essa massa de aves migratórias é a origem da atual pandemia de H5N1 e outras gripes aviárias ou suínas, mas foi também a origem da H1N1. Essa é uma família de vírus das Américas, recorrente em nos presentear com espécies patógenas via transbordamento zoonótico. Por tal via, explodiu a gripe espanhola como a mais devastadora pandemia dos tempos modernos (3 vezes mais mortal que foi a COVID-19), pela contaminação de jovens americanos acampados na expectativa de irem lutar na Grande Guerra. Essa origem americana irrefutável da gripe espanhola só foi devidamente aceita e divulgada pela ciência moderna após o livro de J.M. Barry, “A Grande Gripe”, de 2004!! Fatos acobertados pela censura militar à imprensa de países envolvidos na guerra, resultou em nada menos que o quatro vezes mais mortes pelo vírus do que causadas pela guerra! Bem, modernamente, vimos Bolsonaro levar o Brasil a 700.000 mortes por COVD-19, com um discurso hipócrita e negacionista dos fatos.

O Povo de Clovis, a pré-história sul-americana e a Guerra Fria


como as minhas!
Ao abordar esse tópico vou divulgar uma youtuber que considero muito boa, a despeito da sua fala corrida demais! A Bia trouxe nesse episódio que copio aqui algo muito interessante sobre as contradições presentes na Paleontologia das Américas. Para começar, é importante entender que a paleontologia moderna ainda assume o paradigma dos povos de Clovis como a origem da ocupação humana das Américas. Datados em menos que 13 mil anos, do Novo México ao Canadá, foram tidos como a base evolutiva de TODOS os povos americanos, vindos do Estreito de Bering.
No entanto, ao longo dos anos, evidências do contrário surgiram, a maioria delas na América do Sul. Nominalmente os trabalhos de Niéde Guidon no Piauí e de paleontólogos chilenos em Monte Verde, irrefutavelmente suportam ocorrência de colonizações de ao menos 40 mil anos, muito antes da colonização via Estreito de Bering ser fisicamente possível. A Bia levanta um debate muito interessante sobre a origem das teorias da origem dos povos americanos em Clovis ter acontecido no auge da guerra fria, o que, de certa forma, impunha um desejo de reter aos EUA todo o protagonismo existencial das Américas, back down to the Holocene!!!! Muitas décadas foram necessárias para derrubar esse erro, que foi e ainda é defendido não por governos, mas por cientistas.


Profa. Guidon levou anos re-datando suas amostras e passando por escrutíneos científicos severos que não eram aplicados da mesma forma em quem não desafiava o paradigma de Clovis. Veja, esse é o processo normal na ciência, mas aqui soma-se dois fenômenos complicadores: um desejo de controlar a narrativa da colonização das Américas, com o preconceito contra a ciência latino-americana. Que, sim, é verdadeira, e talvez não fosse Guidon franco-brasileira e feito seu doutorado na Europa, ainda não teríamos esse reconhecimento. Aqui, reforço a importância de sair do país por um tempo, e criar pontes de reconhecimento nas sedes, seja EUA ou Europa.

Dos parques nacionais ao Smithsonian: make American Great (shit) again

Bem, aqui dá até vontade de chorar. De repente, tu vê os caras detonando sua própria história, apagando deliberadamente resquícios do sofrimento e da contribuição indígena e negra na construção daquela nação nada tão branca, nem tão grande (não mais)! O que foi feito pelo atual governo do Trump para não mostrar ao público as contradições e crueldades coloniais é algo de nível nunca antes visto em países considerados democráticos! Segue uns exemplos:




A ciência estadunidense travestida de decolonial, ou, a forma errada de impor equilíbrio entro o Ocidente e o Sul Global
Preciso colocar um ponto aqui. Os latino-americanos, indianos e chineses nos EUA, contribuem para a evolução da humanidade e das ciências, mas o fazem com uma ciência que fortalece a hegemonia de financiamentos e controle americano (a ver como fica após Trump acabar com tudo). Eles são nossos brothers e parceiros científicos, mas representam a liderança das instituições americanas. Não importa sua origem, está sendo parte de um processo quase centenário de busca de mentes mundo afora, e que ajudou muito os EUA serem o que são. E aí nasce e morre nossa conversa: a percepção e concepção de um Sul Global surge no Hemisfério Sul, mas a ideia do decolonial, é americana, e anti-Europa, ao menos no que tange a ciência. Olha os principais teóricos desse grupo onde trabalharam ou trabalham:
- Aníbal Quijano (Peru): Foi professor na Universidade Nacional Maior de São Marcos (UNMSM) em Lima, Peru, e também lecionou na Universidade de Binghamton (SUNY) nos Estados Unidos.
- Walter Mignolo (Argentina): Professor de Literatura e Romance Studies na Duke University, nos Estados Unidos, onde é um dos principais teóricos da perspectiva decolonial.
- Catherine Walsh (EUA/Equador): Professora e pesquisadora na Universidad Andina Simón Bolívar, no Equador.
- Ramón Grosfoguel (Porto Rico): Professor de Sociologia na Universidade da Califórnia, Berkeley, nos Estados Unidos.
- Arturo Escobar (Colômbia): Professor na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, Estados Unidos.
- Nelson Maldonado-Torres (Porto Rico): Professor na Rutgers University, Estados Unidos.
Voltemos aos chineses, não os que ficaram na América, mas os que voltaram e reinventaram a comunidade científica chinesa, que hoje faz frente a tudo isso. São exemplos de apropriação, investimento nacional, e construção de sua própria história e hoje lideram a ciência mundial sem firula, sem conceitos politizados, ou seja, com descobertas e publicações. Eles, assim como nós, depositam o que descobrem em um sistema só, global, de circulação do conhecimento, ligado a editoras confiáveis e em inglês. Infelizmente, há muito conhecimento científico avançado criado à parte desse modelo global, por exemplo em parte da comunidade científica russa.
O não compartilhamento de saberes causa atrasos para todos. E por isso que a busca precisa ser por igualdade de acesso e investimentos, e honestidade científica na divulgação e construção social a partir dos saberes acumulados pelas sociedades. Mais que nunca, lutar para que saber seja conhecido e não distorcido, parece ser uma questão de sobrevivência.
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