Novel Ecosystems, invasores biológicos, ou, simplesmente, o Mundo dos Homens: redefinindo a inevitável movimentação de espécies e a urgência de manejar o Planeta adequadamente.

1 – A evolução das espécies na perspectiva de uma Ilha.

Essa foto inicial é dos Açores, Ilha de Terceira. O arquipélago mais isolado do Atlântico, com ilhas tão antigas quanto 2 milhões de anos até a mais nova, de cerca de 300 mil anos (e uma pontinha da Ilha do Pico, que explodiu e surgiu em 1940). Trabalhei nos dosséis dos Açores de 1999 até 2009, e ainda temos artigos sendo produzidos. Como qualquer ecossistema efetivamente insular, é um ecossistema raro e sensível. Sofrem, pelo isolamento, de um processo que é definido como desarmonia taxonômica, ou, mais amplamente aceito, nichos vagos.

Ou seja, espécies que evoluíram em uma comunidade ecológica complexa de um continente, em um dado momento colonizam uma ilha a uma distância alcançável. No entanto, nem todas as espécies com as quais essas evoluíram, e que moldaram suas adaptações e exigências ecológicas, conseguirão alcançar essa ilha. Assim, várias novas adaptações irão evoluir pelas lacunas interativas. Por isso, as ilhas oceânicas são tomadas de espécies endêmicas, exclusivas dali, e quanto mais antigo o arquipélago, maior a diversidade de endêmicas. Nos Açores, por exemplo, a ilha mais velha foi a fonte de espécies que colonizaram a maioria das mais novas, e não o continente.

            Entretanto, por serem ecossistemas evoluídos com lacunas de espécies que cumpririam uma certa função ecológica que permanece vaga, são ecossistemas vulneráveis às espécies invasoras, ou seja, que vem com os humanos de outros lugares. Aqui o conceito de nicho vago precisa ser explicado. O nicho não é algo físico do ambiente, mas uma demanda que a espécie tem sobre o ambiente, é o que ela precisa que exista no habitat onde está, para sobreviver.

Assim, uma invasão biológica, que sempre é preocupante, pode ter impactos muito mais efetivos nas ilhas oceânicas. Fora delas, os invasores são problemas ambientais em ambientes degradados, com diversas extinções locais, ou seja, cheio de lacunas impostas artificialmente por nós, e não por um oceano.

Os Açores sofrem pouca pressão turística, e consegue, de forma bem rigorosa, preservar seus ecossistemas florestais acima de uma certa altitude. As baixadas costeiras, onde as cidades estão instaladas, já não há muito da vegetação e diversidade original, mas conseguem evitar a destruição das formações campestres e florestais altitudinais, com leis rigorosas.

            O mesmo não acontece com o Havaí, o que é uma profunda lástima, dado que aquele arquipélago é o pedaço de terra mais distante de um continente de todo planeta (“no meio do maior oceano”, como uma vez respondi ao Crawley, que perguntou numa aula no Imperial College qual seria o modelo máximo da Teoria de Biogeografia de Ilhas – ele respondeu, “sim, não fossem os americanos”!). essa semana a BBC soltou um artigo superinteressante, sobre esses novos ecossistemas, reorganizados pelo grande conjunto de novas espécies que o compõe.

Freakosystems é um nome bobo para algo que já é denominado como “novel ecosystem”. Novel aqui cabe como original, uma nova conformação de espécies que se relacionam e agora definem como os fluxos de energia e matéria vão acontecer dentro de uma dada comunidade ecológica. Nas ilhas, isso toma as dimensões chocantes de total substituição das espécies nativas, mais vulneráveis à essas invasões impostas pelos homens.

Essa fragilidade insular, também acontece em outros ecossistemas mais frágeis no mundo, os quais precisam sim de ações enérgicas para evitar a entrada de espécies carreadas pelas pessoas. Agora, fora, isso, como se situa a grande massa continental já profundamente alterada pela presença humana, atual ou pré-histórica?

2 – Os continentes são ilhas invadidas pelas espécies que os humanos arrastam consigo?

 A resposta, obviamente, é não. E um não estrondoso. A ecologia é aversa às espécies exóticas, mesmo em condições controladas, como jardins. Embora, paradoxalmente, já que as bases do paisagismo urbano é a composição de espécies de plantas dos mais diversos lugares do mundo. À parte o apelo estético do diferente (que acaba sendo o comum e conhecido – 90% das espécies de jardins onde vivo são da América Central ou África, por exemplo), há um motivo prático pelo ajardinamento exótico: a maioria dos inimigos naturais de uma planta exótica não estará no novo lugar onde ela foi plantada. Mas desde Burle Marx, a ideia de compor jardins e paisagens com as espécies nativas, cresceu e, orgulhosamente, tomou o mundo a partir daqui. Um mundo que preza as espécies nativas, mas que ainda é dominado pelas mais belas plantas que conseguirem fazer crescer envolta de suas casas! Azar de onde vieram!

            Ainda assim, esse é um dilema, embora mais emocional do que paradigmático, que prevalece. Lembro bem de um colega mais elaborado e culto que tinha no NIH, depois de 5 meses em que eu vivenciei feliz as florestas nativas que acompanhavam o Rock Creek Park, que era minha rota de bike ao trabalho, me contou o quanto era um desafio conter espécies invasoras que permeavam essa mata ciliar que acompanhava o Rock Creek, até desaguar no Potomac. Mas, me diga, o que esperar de uma mata ciliar cercada por cidades e territórios transformados desde a época da Independência dos EUA? Os ecossistemas entorno de nós são transformados, e severamente, pelas nossas demandas e engenhosidade. Isso é irrefutável, e de maneira talvez arrogante, nós ecólogos nos negamos a ver. Ainda hoje, é comum em artigos de uma das revistas mais importantes de divulgação científica em ecologia e conservação, O Eco, vermos artigos criticando presença indígena em áreas preservadas e seus direitos de caça. Um simples absurdo, dado que o mundo que colonizamos era um mundo totalmente alterado por eles!

Sambaquis, marcas indeléveis das mudanças paisagísticas dramáticas feitas pelos Tupi-Guarani no continente desde 4000 anos atrás!

Mas há um problema? Sim, há. A teoria sobre espécies invasoras já dimensionou isso de uma forma bem pragmática: para cada 100 espécies que chegam em um novo ecossistema, 1 sobrevive e se estabelece. De cada 100 que se estabelecem, apenas 1 se torna uma praga séria. E são pragas muito sérias. Mas só 0,1%! No sudeste brasileiro, quase todos de minha idade lembram do Tenébrio chamado Idi Amin Dada, que invadiu o Brasil vindo da Uganda, subjugada por um ditador com esse nome.

Ele tomava os jardins e cultivos de frutas por alguns anos, mas em pouco tempo, sumiu. Ainda existe, mas raramente se apresenta como um problema ambiental. Ainda assim, claro, fazemos movimentações perigosas. Recentemente, consegui comprar, legalmente e sem nenhuma restrição, quatro espécies de baratas exóticas, enviadas a mim por correio de criadores brasileiros. Há baixo risco de sobrevivência e escape de três dessas espécies (Gromphadorhina portentosa, a barata de Madagascar, vendida como pet; Eublaberus distanti, caribenha, parente da enorme E. giganteous, da Amazônia, e Blaptica dubia, da Guiana, todas incapazes de escalar um vidro pelas características dos tarsos). Porém, há uma problemática, a Periplaneta lateralis, ou red runner, vendida como isca para pescaria, logo, usada na natureza e ambientes abertos! Essa espécie do norte da África e Ásia Central, é uma poderosa invasora biológica, capaz de deslocar a P. americana! Embora pequena, reproduz muito, libera um odor muito desagradável, e pode causar dados econômicos e sociais muito piores que a barata comum, a qual já é parte da funcionalidade dos sistemas de esgotos de nossas cidades.

A verdade inquestionável é que, seja nos grandes projetos de restauração de paisagens degradadas, nos processos de paisagismo e urbanismo, o que fazemos por natureza é remodelar o mundo ao nosso redor, e nunca restaurar uma condição pristina, na dura, a qual o continente não conhece a pelo menos 15 mil anos. O que precisamos fazer é regulamentar melhor o tráfico de animais perigosos, potenciais hospedeiros de doenças zoonóticas que podem transbordar para nossa espécie, e monitorar nosso entorno. Haverá sempre riscos para saúde nessa movimentação, mas é melhor assumir o fato de que animais e plantas vão circular, dentro e fora da lei, e estarmos preparados para filtrar o que é preciso lutar contra, e o que inevitavelmente vai se tornar parte de nossos ecossistemas antropomórficos originais, não originários! E cuidar dessas paisagens.


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  1. Avatar de Cassiana Severiano
    Cassiana Severiano

    Super interessante!

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