Grandes paisagens humanas, a origem da leishmaniose visceral nas Américas, a descoberta do El Dorado, e os maiores dilemas de um cientista: não sucumbir às suas crenças sem delas desistir!

(uma história sobre cientistas e homens de campo)

Foram os europeus os humanos transformadores das paisagens selvagens da América do Sul, ou apenas os que a transformaram de forma estúpida e insustentável? Uma estória sobre a história das civilizações florestais sul-americanas. Foto – minha, boca do rio Sagres, ao final do Canal do Panamá.

Fawcett ia fazer 58 anos quando desapareceu no rio Xingu, na busca de uma civilização perdida ou, mais especificamente, seu conhecimento perdido que poderia levar a humanidade a um nível diferenciado de conhecimento (vamos voltar nesse ponto). Eu tive um certo alinhamento pessoal com essa história, dado que a exatamente a 100 anos, e faltando a ele o mesmo que agora falta a mim para os 58 anos, algo aconteceu com sua expedição, seu filho, um amigo e seus assistentes, que nunca mais foram vistos. Esse fato criou uma das maiores lendas globais sobre as selvas sul-americanas e seus exploradores, e foi inspiração para Indiana Jones.

O detalhe dessa catástrofe pessoal é bem conhecida porque essa sua última expedição foi estrategicamente financiada por jornais americanos, e seu diário publicado por esses e vários jornais europeus (dado que Fawcett era inglês), no que na época havia de “tempo real”: a cada poucos dias um nativo levava a correspondência literalmente correndo trilha aberta para trás, até a civilização, e um posto que pudesse enviar essa correspondência! Mas a última carta foi para sua esposa, em 29 de maio de 1925, do acampamento do cavalo morto, onde numa expedição anterior havia matado seu cavalo em sofrimento. Nenhuma outra carta foi enviada.

Fawcett foi um geógrafo renomado, tendo passado boa parte de sua vida adulta mapeando fronteiras na América do Sul, mas também lutou na Grande Guerra, cujo sofrimento o ajudou a se jogar ainda mais nas buscas espirituais de seus pais, adeptos do espiritualismo de Madame Blavatsky (com quem, dizem, ele chegou a se reunir). Humanista e habilidoso comunicador, sempre fazia amizades com nativos e assim se aproximava das histórias e relatos da floresta, bem como da sua ancestralidade. E foi ouvindo nativos e lendo sobre os antigos colonizadores, que ele percebeu que os fatos narrados por Francisco Orellana sobre uma civilização no coração da América do Sul, cheia de ouros e riquezas, batiam com aqueles narrados pelos nativos sulamericanos. Orellana, um dos descobridores do rio Amazonas, teria de fato encontrado no “coração da América do Sul” uma civilização que gerou todas as lendas subsequentes do El Dorado. Lendas, porque depois dele quem passou naqueles lugares não viu nada.

Fawcett percebeu elementos de realidade nas descrições que foi encontrando, em buscas feitas em arquivos no Brasil, conversas com nativos e pesquisas históricas sobre os conquistadores. Consumiu sua existência nessa busca, estando bem perto do possível local dessa civilização quando, e ao fim, morreu procurando.

Colonel Percy Harrison Fawcett, 1911. Foto: domínio público.

Assim surge (não na morte dele, assim espero) a minha afinidade por essa história, pois na mesma idade me sinto no mesmo momento que ele estava na minha busca pessoal para explicar a evolução da Leishmaniose Visceral Americana. Ou seja, próximo demais de fatos para negá-los, mas distante ainda das evidências científicas definitivas. Embora tenhamos provado uma série de hipóteses plausíveis por experimentos laboratoriais e análises correlacionais entre a distribuição biogeográfica dos insetos, pessoas e animais associados com a possível evolução do nicho ecológico da leishmaniose visceral nas Américas, não foi o suficiente ainda. Todos os elementos estão em mãos, não para afirmar, mas para continuar na busca das evidências definitivas de agentes causais do fenômeno que pretendemos, um dia, provar factual.

Uma hipótese evolutiva que pede uma devida análise narrativa de fatos passados impossíveis de serem reproduzidos, mas claros o suficiente para que possamos verificar experimentalmente. Esse é um dos processos mais complexos na construção da teoria biológica, ou seja, associar a necessidade de narrar a evolução já acontecida, ao mesmo tempo que busca provar sua factibilidade com base em metodologias experimentais e testes de hipóteses verificáveis.

A busca sobre as reais condições de habitat nas quais Lutzomyia longipalpis evoluiu, e como dali essa espécie de flebotomíneo, transmissor da Leishmania infantum, se apropriou de habitats degradados pela nossa sociedade. Uma busca que precisa passar por um aspecto negligenciado: as sociedades anteriores à colonização e seu próprio impacto de manejo nos ecossistemas da América do Sul. Fotos minhas, Gruta da Lapinha e rio Doce, tomado pelos rejeitos da Samarco.

Esse casamento tortuoso da escola humanista-narrativa com as “hard-sciences” experimentais é devidamente descrito no livro de Ernest Mayr, publicado em 2004, seis meses antes de sua morte aos 100 anos de idade: “What makes Biology unique? Considerations on the autonomy of a scientific discipline” (Cambridge University Press). Mayr é um dos pais da Moderna Síntese, o conjunto teórico que unificou a Genética Mendeliana e a Evolução, demonstrando ser a genética o mecanismo da herdabilidade que validou a teoria da seleção natural darwiniana. Ou seja, ele é um dos que finalizou o quebra cabeça que Darwin tinha iniciado mais de 50 anos antes.

E, em parte, a mensagem desse post passa por isso, pela certeza do cientista de que poderá se frustrar em buscas que em décadas não o levem a nada de concreto, mas que se não forem feitas, não dariam a chance para que gerações futuras descubram fatos novos poderosos. E quase sempre é como foi com Darwin e Fawcett. Ou seja, a falta de um elemento técnico, uma tecnologia, ou uma descoberta paralela à sua, que viriam com o tempo, impedem de finalizar sua obra. Mas ainda assim, sem o caminho que trilharam, ninguém teria olhado para o fenômeno que deixaram para ser descoberto.

Na esperança de descobrir eu mesmo o que busco, espero que encerre aqui os paralelos românticos entre esses caras e eu! Minhas buscas agora envolvem a orientação de alunos que seguem os passos que comecei, buscando evidências importantes nessa direção teórica difícil de conciliar: vestígios de padrões do passado, campo e experimento. Tanto que poucos se arriscam com tal complexidade. Nossa busca é por evidências parasitológicas sobre o que a arqueologia moderna vem descobrindo: a América do Sul foi em grande parte ocupada e modificada pelo homem original no Holoceno. Houveram pelo menos duas ondas migratórias, a primeira ocupou as cavernas que cobrem ¼ do território brasileiro, e a segunda feita por Tupi-Guaranis, trazendo técnicas de manejo de solo e água da Amazônia, que provavelmente modificaram dramaticamente as paisagens costeiras e do Planalto Cristalino do Brasil.

Os progressos nas análises de metagenômica e na extração e reconstrução de DNA ancestral permitiu tal revolução na leitura que fazemos do nosso passado recente (entre 10.000 e 2.000 anos atrás). Esses mesmos progressos nos permitiram entender de forma bem próxima do definitivo, que a Leishmania causadora da doença Leishmaniose Visceral Americana, L. infantum, não deve ser nativa daqui, mas sim veio trazida por portugueses, potencialmente em cachorros infectados, que comumente eram adotados pelos indígenas. Diferente das diversas espécies de Leishmania florestais da América do sul, causadoras das formas cutânea e tegumentar da doença, no Velho Mundo a L. infantum e L. donovani, que causam a leishmaniose visceral, nunca foram doenças consideradas silváticas. São parasitos associados à antigas civilizações e associados a uma interação bem específica entre dois hospedeiros: a domesticação de canídeos pelas pessoas. Então, como poderia a leishmaniose visceral nas Américas ser uma doença carreada por raposas selvagens e um flebotomíneo endêmico de vegetações nativas e pristinas, e que subitamente se adaptou aos subúrbios de nossas cidades, onde essa doença prolifera? Falta um elemento que estamos colocando no lugar: as populações originais.

As primeiras evidências de um habitat negligenciado de L. longipalpis, relacionado ao desenvolvimento de imaturos até adultos, foram publicadas na minha Tese de Doutorado na Parasitologia da UFMG, e em breve na Revista Brasileira de Entomologia. A busca que se segue é por uma evidência de campo mais robusta quanto à dependência dessa espécie de inseto por um ambiente potencialmente abundante em paisagens modificadas pelo homem pré-histórico. Foto minha, da Tese.

Estando esse caminho científico da leishmaniose visceral em curso, vamos voltar à Fawcett, e terminar com uma história já contada para termos um fim. Por décadas, Fawcett foi diminuído, visto como um homem consumido por uma paixão, e sem fundamentação científica nenhuma. O fato de que ele procurava sabedoria de povos nativos, e não a evidência de sua existência ou suas riquezas materiais, contribuiu para diminuir sua imagem, paradoxalmente. O grande furo estaria no fato de que os antropólogos não consideravam que os solos naturalmente pobres da floresta e cerrado fossem capazes de sustentar grandes civilizações. Esse foi por muito tempo um paradigma sustentador da hipótese de ausência de grandes civilizações no Brasil pré-histórico.

Foi quando o Ilumina, o Torrent e novas tecnologias moleculares que vêm transformando a Biologia desde 2015 (sim, vivemos uma revolução de apenas 10 anos!) deram à arqueologia evidências demográficas dramaticamente diferentes das anteriores. Ao entendermos que o Holoceno foi um período de grandes populações humanas no continente, fez a biografia de Fawcett ser revista. O desmatamento no Mato Grosso também evidenciou geogrifos espetaculares (descritos na revista da Fapesp acima). Nesse momento, descemos de nossa arrogância ocidentalizada, para olhar atentamente para as tecnologias de transformação da paisagem dos povos Tupi-Guarani, dos Sambaquis sepulcrais à terra preta. Sem o sustentáculo teórico de nosso preconceito, conseguimos ver o que estava na cara: poderosos elementos de manejo e enriquecimento da paisagem natural criados pelos povos originais! E civilizações.

Quantos brasileiros tem consciência dessas estruturas civilizatórias no coração do Centro-Oeste? Foto: Revista Fapesp

Fawcett foi vingado. Exatamente onde ele previu, de fato havia uma civilização, a qual potencialmente Francisco Orellana encontrou. Mas se assim foi, o que fez com que desaparecesse em menos de 500 anos, e por que ninguém mais os encontrou? Bem, aqui voltamos às dúvidas, mas também à parasitologia: talvez o contato com espanhóis tenha lhes dizimado, não por guerra, mas pela susceptibilidade de uma civilização inteira à patógenos europeus! Essa história triste muito bem contada para os Maias e Aztecas, e de grande acesso ao imaginário popular, permanece escondida da sociedade brasileira, que estranhamente insiste em negar um passado glorioso que não seja europeu. 

Rascunho das rotas de Fawcett em direção ao Xingu e seu El Dorado, que chamou de civilização Z, e a rota de sua primeira expedição na América do Sul, para mapear as fronteiras da Bolívia.

Obs  – a inspiração para esse post veio de um documentário do Canal do Youtube chamado Real History. Recomendo.


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  1. leio seus textos faz bastante tempo e nunca me canso de encontrar neles muitos traços seus como se delineassem um desenho

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