
A ideia em questão é… qual é a rede interativa mínima entre espécies, que poderia agir como uma “semente” transformadora de uma paisagem? Um pensamento que me veio ao voltar do almoço na UFMG e passar pela florestinha do Diretório Acadêmico da Biologia, no prédio do Instituto de Ciências Biológicas. Esse D.A. está no meu coração, como fui seu vice-presidente no final da minha graduação. Mas a nova geração que fez algo brilhante, que fomos acompanhando ao logo dos anos. Ao plantarem um conjunto de árvores e cercarem por um tempo o terreno envolta de uma das colunas de escadaria, criaram uma pequena floresta grudada no prédio. Ao longo dos anos, essa pequena regeneração se estruturou lindamente, para os olhos de um biólogo.

Um pequeno ponto com o devido esforço inicial, virou uma mini-floresta espontânea.
Hoje o lugar tem estratificação do dossel, com árvores emergentes, um miolo mais denso e úmido, e um dossel inferior. Também tem um lindo sub-bosque, com uma espessa camada de folhedo (mas não excessiva, que refletiria uma incapacidade de decomposição), espécies de sombra (usuais em jardinamento de prédios, um aspecto importante nessa reflexão), e plântulas (bebezinhos de árvores) germinando espontaneamente.

Um biólogo que passou metade da vida no alto das árvores reconhece uma floresta em começo quando vê uma!
Alguns aspectos chamam a atenção de um ecólogo. Exatamente o fato desse fragmento parecer muito com uma floresta saudável: folhedos em densidades usuais, recrutamento de novas árvores, diversidade no sub-bosque e estruturação do dossel. Como estamos em um sistema semidecidual, a Mata Atlântica de interior seca mesmo, e estando em final de junho, de fato, o lugar lembra um capão de mata dentro de um ecossistema de cerrado, até. Florestas contaminadas costumam parecer estranhas. Costuma ter excesso de fungos no folhedo, silêncio, árvores com desfolhamentos inesperados. E ausência de certas espécies de insetos, o que usamos como bioindicação de impactos.


Sim, temos subbosque e folhedos!
Claramente, esse pequeno jardim-floresta aparentemente funcionando me fez pensar em “sementes de regeneração”, algo que um dos filmes da Jornada nas Estrelas, na década de 80, já tinha trazido: O projeto gênesis. Ali a “contaminação” de um planeta sem vida se daria assim, segundo o blog “https://memory-alpha.fandom.com/wiki/Project_Genesis”: “There, they developed the Genesis Device, a torpedo-like technology which was the delivery mechanism that triggered the transformation dubbed the “Genesis effect” by the team. The process involved reducing the target space body to subatomic particles, then reassembling them, according to the pre-programmed Genesis matrix.” Claro, isso não faz nenhum sentido científico, mas soou plausível em 1982 (ou soou que soaria em 2284, quando o filme acontece). Ainda assim, a ideia antropológica por trás do filme, e da própria gênese bíblica, é que a origem da vida é um processo de contaminação! A vida infectando um planeta. Veja, a palavra que eu usei inicialmente foi semente, mas agora, falamos de contaminação, uma forma viva, com uma unidade reconhecível, que entra onde não pertencia. Mantenha isso em mente, mas vamos voltar à ideia da semente antes.

Curioso que na década de 80, o imaginário artístico projetava a criação de mundos colonizáveis por uma bomba, e não a regeneração do nosso planeta!
Imagine conceber uma construção mínima de espécies dentro das redes tróficas de uma floresta preservada, da microbiota ao conjunto de espécies de árvores, passando pelas combinações certas de insetos decompositores, herbívoros e predadores, capazes de atrair aves e outros elementos faunísticos. Tal semente da restauração ecológica, capaz de “germinar” uma floresta que possa rapidamente alcançar um tamanho suficiente para garantir estabilidade das interações ecológicas, e se espalhar por uma paisagem degradada.
Espera aí? Um solo degradado pode ser florestado espontaneamente? Depende, no geral, algum manejo de restauração é necessário, mas florestas no geral constroem seus necessários nichos. Tanto na Amazônia Central e nas florestas montanas de Minas Gerais, uma complexa estrutura arbórea é dependente dela mesmo, e se forma lentamente pela transformação orgânica da superfície do solo e pela criação de uma maior estruturação do subsolo, atraindo e favorecendo diversas espécies de invertebrados que compõe esse habitat.

Quais as funcionalidades ecológicas mínimas para uma floresta “germinar”?
Ou seja, restaurar florestas é um negócio promissor, e de fato um dos elementos que o Ministério do Meio Ambiente e Marina Silva consideram para transformar o território e o estilo de vida das pessoas na Amazônia de hoje, cooptadas pelo tráfico de minérios ilegais. Mas por que, se tal semente de florestas seja possível, mesmo que ainda não entendamos completamente como iniciá-la, não vemos pequenas florestas surgindo pelas cidades e na zona rural? Talvez porque as pessoas dentro da estrutura ocidental de sociedades e desenvolvimento, não gostem de florestas tropicais, simples assim.
Por um lado, a própria concepção de progresso ocidental é baseado em organizar a paisagem. O mundo simétrico, estruturado, mesmo as florestas europeias, são pesadamente manejadas para terem as dimensões aceitáveis a um mundo civilizado. Daí também surge tendências até interessantes de manejo da paisagem, o landscape gardening dos grandes pensadores do urbanismo ocidental, como Capability Brown na Inglaterra e seus seguidores americanos, a turma do Frederick Olmsted, o criador do Central Park. A ideia do homem na natureza é, em grande parte, o homem inserido na natureza que nós re-criamos! Não vejo nada de errado nisso, e várias dessas paisagens são mesmo lindas. Um devido jardinamento tem lugar no bem estar das pessoas. No entanto, nos falta a possibilidade tropical de relacionar esse bem-estar com uma condição menos europeia.

A natureza segundo Capability Brown! Fonte – https://graduatelandscapes.co.uk/garden-design-blog/great-british-garden-designers-lancelot-capability-brown/
Veja os campus das nossas universidades. Eles são um combinado estranho de áreas jardinadas que recebem todo investimento urbanístico possível, e terrenos abandonados onde a vegetação natural prevalece. No campus da UFOP, temos áreas preservadas de canga ferruginosa, sendo o campus uma antiga mineração de bauxita no topo de um morro. Embora preservadas, por mais que tentemos sensibilizar administrações após administrações, o investimento na transformação e urbanização da canga, visando a visitação cultural da população de Ouro Preto, nunca aconteceu. Também é possível vislumbrar as áreas que espontaneamente são criadas pelo pisotear das pessoas e a sucessão natural. Por que essas áreas não são planejadas, mas incorporando sua natureza orgânica e legítima, tropical e espontânea, invés de ser convertida, um dia, em um jardinamento excessivamente planejado?

Ao lado do DEBIO e da concha Acústica, a paisagem planejada do campus da UFOP, abaixo, a paisagem espontânea, das plantas pioneiras e das pessoas com pressa, encurtando deus caminhos!
Não tenho essas respostas acima, mas tenho essa: a inexistência de uma valorização cultural da vegetação que cresce naturalmente, sem nossa intervenção, impossibilita que o homem comum ame a regeneração florestal, ou que a deseje perto de si. E isso é um problema. As florestas tropicais são, no imaginário ocidental urbano, uma infecção na paisagem, uma contaminação, logo, uma impureza.
Por um lado, uma infecção biológica, não é um conjunto de espécies re-desenhando um hospedeiro que é invadido. A comparação, biologicamente, não se sustenta. Aliás, é o contrário. Organismos saudáveis são aqueles que tem uma rede trófica de microrganismos simbiontes bem estruturada e funcional, o que impede que um organismo patógeno o invada. Uma floresta saudável, soa mais como uma mibrobiota de pele ou estomacal de uma pessoa saudável, não como uma infecção. A infecção biológica clássica é uma espécie apenas que quebra as defesas imunes do hospedeiro, e o adoce.
Por outro lado, no imaginário das pessoas, no nosso inconsciente coletivo, há uma outra concepção sobre uma infecção, que antecede o microscópio ou Pasteur: é a percepção do que está fora do lugar. O conceito antropológico de contaminação ou impureza, que associamos a uma pessoa doente, é o conceito do que não pertence. Veja as iniciações primitivas. A maioria ou todas as iniciações do adolescente à vida adulta o prepara com ornamentação e testes que não pertencem à vida cotidiana. Sejam as pinturas, o comportamento imposto, ou mesmo o embranquecimento das jovens xavantes por reclusão longe do sol por meses. O ponto desses rituais é deixar o indivíduo reconhecível como um corpo estranho na vida adulta. Ele entra em campos de ação dos adultos, mas ainda não o é, e um ato iniciático o transformará. Até lá, ele é uma impureza no grupo ao qual ainda não pertence.

Adultos não tem penas!! Você é uma impureza ainda! Ritual de passagem para a vida adulta é tradição dos povos Karajás, Karajás-Xambioá e Javaés. — Foto: Manoel Júnior/Sepot – Governo do Tocantins.
Essa concepção coletiva do não pertencimento aplicamos às florestas autorregenerativas, por mais saudáveis e benéficas que elas sejam para nós e para a sociedade. Sem reverter essa percepção da floresta como indesejada por ter folhedos decompondo (quem não tem aquele avô na roça que rastelha o quintal e não deixa nem uma folha no chão?) e plantas crescendo espontaneamente e não guiadas pela mão humana, não avançaremos. A velocidade e a escala necessária para a reversão das cidades e campos desérticos em florestas reais e funcionais, passa pelas pessoas amarem as florestas tropicais.
Bem, a maioria dos não biólogos que lerem esse texto não terão entendido muito, ou discordarão. Temos um longo trabalho pela frente, meus alunos! E pouco tempo.
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