
Quando os representantes do capital trazem a discussão sobre o 6X1, sempre terminam sugerindo que a baixa capacitação do trabalhador brasileiro afeta a produtividade, por isso seria contraproducente baixar a carga de trabalho, com prejuízos para o país todo. Um professor universitário, quem vem por décadas formando e capacitando centenas de profissionais, deveria se sentir meio incompetente ao ouvir isso. Como não somos incompetentes, e como sei que uma das grandes frustrações dos nossos formandos é que a maioria dos empregos disponíveis não são para o nível superior, com ofertas de salário abaixo das suas atribuições, sei também que algo não está fechando nesse raciocínio simplório.
Se afinal, o problema da produtividade está na competência do empregado, por que não empregar graduados e pagar salários compatíveis? Ou, se esse não é o caso, tais empresas vivem movidas por mão de obra pouco treinada na chegada e a empresa é autossuficiente para capacitar para atividades braçais e repetitivas, e eles ditam essa competência eles mesmos, portanto, podendo melhorá-la, mas não conseguem.
Portanto, não me parece fazer muito sentido o argumento da baixa produtividade centrada no trabalhador. Para apenas começar essa discussão, vamos comparar ao longo dos anos quem mais horas trabalha por países, a partir de um post que a Infomoney publicou, com dados do “Our World in Data”.


Estamos no topo com Índia, China, Rússia, Coreia do Sul e Estados Unidos. O que isso diz sobre o valor de trabalhar muitas horas? Bem, como Alemanha, Japão, Canada, Reino Unido estão bem abaixo e tem PIBs bem acima que alguns de nós, nada me parece sugerir que eficiência e tempo do trabalhador no emprego sejam uma relação totalmente dependente.
Já se o problema são os formados, caímos em outro impasse, a inquestionável melhoria nas condições de formação de profissionais no Brasil nas últimas 50 décadas ou menos. Uma medida que é proxy dessa qualidade de capacitação está no número de Doutores que um país forma, sendo o superávit de doutores em um país sempre um indicativo de alcance de status de desenvolvimento. México e Índia já tinham alcançado isso por mais tempo, e nós alcançamos nesse século, depois de que o número de programas de pós-graduação aumentou mais de 500%, a partir do REUNI. Fomos de menos de 0,04% da população com doutorado, para um modelo econômico onde parte das atividades econômicas (empresas tecnológicas, laboratórios e consultorias, pelo menos) já absorve esse tipo de profissional, mas uma parte menor do que o número de doutores que temos para oferecer.

Hoje, temos não só graduandos, mas um grande número de doutores disponíveis ao mercado de trabalho, que poderiam agregar competência e capacidade de solução de problemas, e assim aumentar a produtividade de qualquer estabelecimento, de uma padaria a uma grande indústria. Isso já valia na Inglaterra desde que eu era doutorando. A maioria de meus colegas não tinha a esperança de seguirem uma carreira científica, mas sua formação científica os equipava com recursos que garantiam a eles os melhores empregos. Bem, voltamos na falta de valorização do treinamento de nível superior pelos empresários brasileiros, que não abrem empregos para absorver a grande competência que temos aqui, porque custaria salários altos, mesmo que esses salários altos fossem menores que os lucros que poderiam trazer!
E temos bons doutores? Sim, e praticamente TODOS os grandes centros de pesquisa do mundo têm brasileiros empregados, não exclusivamente os que estudaram fora e não voltaram, mas um grande número de doutores formados pelas instituições brasileiras e que aqui não conseguiram emprego. Hoje somos o 12º país que mais produz ciência no mundo, e isso reflete na qualidade do recurso humano que espalhamos na comunidade científica. O CNPq e CAPES tendem a tratar isso como expatriação e cobram o valor das bolsas de volta para quem fica fora do país. Entretanto, o mais producente seria um programa de larga escala para absorção desse recurso, criando competitividade internacional de salários, em um grande projeto nacional, tanto público quanto privado. Aliás, estou repetindo o “deal” com o qual os EUA atraíram os cientistas europeus no pós-guerra, se tornando a potência científica que foram por décadas (já perdem para a China agora).

E no debate do 6X1, alguém ouviu algo sobre investir em qualidade e pessoas altamente capacitadas para melhorar a eficiência das empresas, sem precisar ter gente trabalhando até morrer? Eu não me lembro.
Para encerrar, vamos então explorar algum índice que mostre os investimentos das empresas na qualidade do ambiente de trabalho, que é o mínimo para garantir disposição e condições para um trabalhador render. Há vários rankings que combinam licença remunerada, salário, jornada, saúde e segurança, globalmente. Se olhar pelo Work Balance 2025, William Russel/OECD, não somos top 10 em nenhum. Curiosamente, os EUA são os piores em vários, pela precarização do trabalho (me lembrando um deputador que sugeriu que trabalhássemos feito os americanos…).
Mas vamos aprofundar nas quantificações da Organização Internacional do Trabalho, OIT. O relatório mais completo é o “Working conditions in a global perspective (OIT-Eurofound)”, que compara 41 países em 7 dimensões: ambiente físico, intensidade, jornada, ambiente social, habilidades, perspectivas e salário. Não somos os 20 melhores do mundo, mas somos o 3º da América Latina, atrás de Uruguai e Chile. Nosso índice (0,286) mostra que pelo menos 52,4% dos trabalhadores tem ao menos uma privação de qualidade!
Aqui, detalhamentos das dimensões mensuradas da OIT, e onde o Brasil perde, segundo busca dos IA de plantão:
As 7 dimensões da OIT.
1. Ambiente físico
Riscos físicos, químicos, biológicos, postura, ruído, temperatura.
Brasil perde: Alta informalidade na construção civil, agro e serviços domésticos = menos fiscalização de EPIs e ergonomia. Índice de acidentes de trabalho é ∼2x maior que na UE.
2. Intensidade do trabalho
Ritmo, pressão por prazos, demandas emocionais, interrupções.
Brasil perde: Jornada média ainda é alta, 39h/sem vs. 32h nos nórdicos. Pressão por metas no varejo e call centers puxa o indicador para baixo.
3. Tempo de trabalho
Duração semanal, horas extras, trabalho noturno/fim de semana, previsibilidade.
Brasil perde: 1/3 dos trabalhadores fazem +44h/sem. Trabalho aos domingos e banco de horas sem controle são comuns. CLT garante férias, mas horas extras nem sempre pagas na informalidade.
4. Ambiente social
Suporte de colegas/chefes, assédio, discriminação, comportamento social adverso.
Brasil perde: Denúncias de assédio moral/sexual no trabalho são altas. Desigualdade racial e de gênero persiste: mulheres ganham 20% menos e pretos/pardos têm pior inserção.
5. Habilidades e discricionariedade
Uso de habilidades, autonomia, aprendizado, complexidade da tarefa.
Brasil perde: 56% da força de trabalho está em ocupações de baixa qualificação. Pouca autonomia: só 25% dizem que podem escolher métodos de trabalho, vs. 60%+ na Dinamarca.
6. Perspectivas
Segurança no emprego, carreira, empregabilidade.
Brasil perde feio aqui: Informalidade de ∼40% = zero estabilidade. Rotatividade alta: 40% dos vínculos formais duram <1 ano. Pouca formação contínua oferecida por empresas.
7. Rendimentos
Nível salarial, composição, pontualidade.
Brasil perde: Salário mínimo cobre só 50% do custo da cesta básica. 52% dos trabalhadores ganham até 2 SM. Desigualdade: 10% mais ricos concentram 59% da renda. (e ainda temos candidato à Presidência que quer congelar o salário-mínimo. Fizeram as contas se o salário-mínimo só aumentasse para acompanhar a inflação desde o Plano Real, hoje ela seria de menos de R$600,00!!).
Ou seja, os empregos que a iniciativa privada oferece ao brasileiro são precários, deficientes em direitos e qualidade, com muito pouco investimento, mesmo tecnológico (a precariedade de equipamentos, de computadores a maquinário, é uma realidade que baixa notavelmente a competitividade, mas não é dominante em todos, mas em alguns setores). E a culpa da baixa produtividade é do empregado? Acho que não. Mais lamentável ainda, a pouca capacidade de discernimento político da população, transfere ao governo o peso desse ambiente precário e o baixo investimento da iniciativa privada na qualidade do trabalho brasileiro. E, como consequência, acham que votar nos representantes de seus patrões poderia mudar isso. De fato, pode e vai, mas para pior.
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