
Um surto de Ebola declarado urgência global de saúde pela OMS no dia 17 de maio de 2026. Uma espécie, o Ebola Bundibugyo, para a qual não há vacina. Sim, e sinto muito em dizer, mas essa pode sim ser a próxima pandemia. Por um simples motivo: essa espécie de Ebola não mata tão agressivamente como o Ebola Zaire que circulou nos anos anteriores, matando até 90% dos infectados. Não é a primeira vez que essa espécie, o Ebola Bundibugyo, causa uma epidemia, mas algo precisa ser dito, VÍRUS EVOLUEM RÁPIDO, E NO GERAL NA DIREÇÃO DA PERDA DE VIRULÊNCIA, OU SEJA, LETALIDADE. E com letalidade entre 25 a 50%, ele pode já ter circulado distâncias enormes sem ser percebido, assim como foram todas as demais pandemias. Com baixa letalidade, é mais difícil restringir a circulação do vírus, dado o grande número de assintomáticos, e ele já pode estar em muitos países mesmo fora da África. Em 24 horas após o alerta da OMS, foi detectado nos países na fronteira, para se ter uma ideia.
E a epidemia inicia nas fronteiras tensas entre o país e Uganda, não muito distante de Ruanda, onde há uma guerra disfarçada entre esses países, e exercida por milicianos ruandenses do M23. Também, é uma região de elevada movimentação de pessoas nas fronteiras, em especial associados à mineração. Em decorrência desse cenário, a pobreza generalizada está revertendo um quadro anterior de regeneração florestal, agora re-desflorestada para venda de carvão. Finalmente, exposição à fauna silvestre sob elevado estresse, pela pressão de caça, perda de habitats e conflitos.

Um contexto local de conflito e uma doença reemergente? Sim, mas não apenas. Estamos falando da República Democrática do Congo, de onde o MPOX surgiu logo após o fim da pandemia de COVID-19, e onde a grande pandemia de AIDS também surgiu, durante conflitos armados na década de 80. E estamos falando de África, o berço da humanidade, onde nossa espécie teve muito mais tempo evolutivo que em qualquer outro continente, o que, potencialmente, pode ter resultado em acumulação de grande diversidade de patógenos capazes de nos infectar. Ser África também onde convivemos com outras espécies de grandes primatas não ajuda muito nos riscos naturais de transbordamentos de doenças associadas à primatas.

Assim, além da confluência desses fatores acima descritos, capazes de ampliar o risco de surtos de consequência local, e a possibilidade de espalhamento de epidemias com riscos plausíveis na escala internacional, é preciso olhar com desconfiança para outros fatores aparentemente secundários no aparecimento desses eventos.
Fator desmatamento – Não é ao acaso que a República Democrática do Congo permaneceu com um desmatamento perto de irrelevante até entorno de 2013 a 2014. Por ser um país de infraestrutura frágil e enorme insegurança, a logística de extrativismo de larga escala sempre foi complexa. Um lado extremamente positivo disso é que sua floresta, contínua até o Congo e Gabão, chegando até a costa Atlântica africana, foi por muito tempo uma das maiores e melhor preservadas florestas equatoriais do planeta, perdendo pouco para a Amazônia, que, no entanto, já era muito mais ameaçada em todos os países da bacia. No entanto, o avanço do desmatamento amazônico foi amplamente revertido pelo governo brasileiro a partir as ações iniciadas na segunda década do século (embora temporariamente interrompidas no governo Bolsonaro).

Após as restrições ao desmatamento amazônico serem postas em prática, o comércio de madeira diminuiu sensível e permanentemente, sendo o desmatamento atual relacionado à mineração criminosa e ampliação de áreas de pastagem, nesse último caso, feitas com queima da madeira para evitar provas do desmatamento ilegal. Essa dinâmica, embora não facilmente correlacionável com os fatos, bate com as datas nas quais o desmatamento começa a ampliar no Congo, entre 2013 e 2014. É possível notar também, pelas análises no Global Forest Watch (https://www.globalforestwatch.org/), que as cicatrizes de desmatamento (em cor vermelha) são seguidas por um aro de regeneração florestal (em cor azul).
Isso sugere que a dinâmica de desmatamento no país é profundamente extrativista, seguida de abandono da terra e não na sua transformação definitiva. Por um lado, se favorece a regeneração da floresta e retorno da biodiversidade. Por outro lado, se mantém uma população pobre inserida em um cenário de degradação ambiental, florestas e fauna sob severo impacto, e nenhuma assistência social provável em terras abandonadas. Não sei se esse padrão exploratório seguido de abandono continuará, dado que o aumento do rigor legal na Amazônia brasileira está levando grandes “desmatadores da transformação” para África, entre eles, a brasileira JBS, que está com um plano gigantesco de expansão da produção de carne bovina na Nigéria (ainda encontrando alguma resistência importante na Holanda, onde a JBS transferiu sua sede)

Mas vamos fechar a análise na província de Ituri, onde o surto de Ebola está ocorrendo. Ali temos metade desse território protegido pela reserva de fauna dos Ocapis, a qual, entretanto, está cercada por áreas de desmatamento recente, e em larga escala. É possível notar cicatrizes de desmatamento antigo em regeneração entorno das cidades maiores da região, e uma vasta extensão de desmatamento mais recente a partir desses centros até as fronteiras da Reserva, e mesmo dentro dela, ao longo da única estrada que lhe corta. Ou seja, esse território está sob extrema pressão de impactos ambientais, os quais aparentemente não parecem estar trazendo nenhum ganho financeiro para as comunidades locais. Ali a maioria vive de empregos vulneráveis, expostos a extrema movimentação de pessoas entre localidades dormitório e de produção, no caso, extrativismo predatório, seja mineração ou madeireira.

Fator Trump – Eu podia ser mais polido aqui e chamar de “Fator perda de orçamento da OMS”, “Fator isolamento internacional”, mas a verdade tem nome, talvez dois nomes, e poderia também ser chamado Fator Musk, já que foi ele que convenceu Trump que o grau de corrupção da USAID era tanto que deveria fechar essa organização humanitária. Bem, a USAID não era corrupta e, ao contrário, prestava um serviço de valor extraordinário para a qualidade de vida e controle de doenças em África, algo que, ironicamente, só foi reconhecido por ter sido demolido por Trump.

A falta de ações diretas do USAID na região não é algo circunstancial, pois especialistas afirmam claramente que há uma relação direta entre o atual surto do Ebola e o abandono das ações do USAID no país. Para além da retirada de ações diretas, tal desmonte foi seguido pela saída dos EUA da OMS, derrubando o orçamento da Organização. Com isso, a lacuna e o déficit de ajuda humanitário na República Democrática do Congo dobrou em 2025!


Fator blackout de dados – Bem, eu poderia chamar isso de Fator Trump2, pois de novo, ele é a origem desse problema. Não me parece mera coincidência que o último grande surto de Ebola, na cidade de Lagos, Nigéria, tenha acontecido no primeiro governo Trump, o qual já tinha desestabilizado a ajuda humanitária no continente, bem como tenha a pandemia de COVID-19 ampliado tanto e matado tanta gente nesse período.

Doenças emergentes e pandemias são profundamente auxiliadas pela ignorância humana. Não saber que a peste negra vinha das pulgas causou o quase extermínio dos europeus. Não entender que a febre amarela é transmitida por mosquitos retardou por mais de 100 anos a construção do canal do Panamá. Da mesma forma, levar quase 90 anos para que a ciência descobrisse que a Gripe Espanhola foi causada por um vírus e não bactérias, deixou que o H1N1 e outros vírus aviários similares se espalhassem confortavelmente pelo mundo, navegando na nossa total ignorância sobre suas origens e formas de transmissão.

A ignorância científica sempre deu uma empurradinha às pandemias. Agora que isso não precisava acontecer, governos brincam de “não vejo nada, não escuto nada, não falo nada”
Hoje, a ignorância não tem bases científicas. Ao contrário, nunca estivemos numa posição tão extraordinária para conseguir entender e criar reações às crises sanitárias como hoje. Em grande escala, a pandemia foi interrompida pela ciência e à despeito do descaso dos governos dos dois maiores países-hub para transmissão da COVID-19 no mundo, EUA e Brasil. O problema hoje é a escala do dano causado pelo governo Trump nas bases de dados científicos do país, que, claro, não são do país, mas globais. Aqui, é importante entender a realidade civilizatória ligada a existência de um império. Não há questionamentos sobre a soberania do império americano no mundo, por mais patético que esse império seja hoje, ele ainda é um império. Assim, dados, recursos humanos e financeiros, e a ciência em si, que são essenciais para a estabilidade global, estão centrados nos EUA. Claro, esses recursos não são exclusivamente centralizados nos dias de hoje. Dados globais de desmatamento, emissão de CO2, poluentes, pobreza etc, não dependem estritamente dos EUA, mas várias outras informações sensíveis sim. Minimamente, se um país da escala industrial e demográfica dos EUA subitamente entram em blackout de informações, o mundo inteiro fica fragilizado!

E é exatamente isso que está acontecendo! O cancelamento da divulgação e transparência dos dados gerados e geridos pelos americanos, quando não sua total destruição, seja sobre saúde, poluição, aquecimento global e meio ambiente, é um evento profundamente grave para todo o planeta. Diante de tamanha cegueira que, claramente, afeta primeiro a população americana, uma das conectadas do planeta, amplifica também os riscos globais sobre surgimento de novas doenças, e seu espalhamento global. Diversas universidades americanas estão processando o Trump para evitar o apagão de dados e da gestão dos mesmos. Porém, o que de fato mesmo existe, o que o momento mostra, é a reverberação dessa política de cegueira e submissão, que vai nos afundando a todos em uma situação de riscos desnecessários.
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