
Qual a importância estratégica da agricultura de alta diversidade da Amazônia Colombiana para o mundo?
Esse texto poderia chamar: “A agricultura nos fez mais saudáveis ou mais abundantes? A perda da diversidade alimentar com domesticação das espécies e o aumento de patógenos como preço: um cenário não tropical da humanidade”. E esse nome, só não ficou que precisa de explicação. Ainda hoje, a despeito do entendimento mais amplo sobre a história da humanidade como de fato ela é, ainda é normal pautarmos o entendimento da evolução tecnológica ancestral de nossa espécie a partir do mundo ocidental, mesmo que tecnologias de grande valor tenham surgido as Américas e no Oriente e, nesse último caso, muitas anteriores ao que vemos no Levante e na Europa do início do Holoceno.
E antes de começarmos, “vida sedentária” é um termo aqui usado, mas não relacionado a promulgada vida de poucos exercícios. Aqui me refiro às comunidades que param de migrar e estabelecem um assentamento permanente, o que intensifica as modificações da paisagem e do ecossistema ao entorno desse grupo de pessoas. O sedentarismo das comunidades foi um fenômeno oriundo de dois eventos do Holoceno: uma maior estabilidade climática, a qual favoreceu em várias partes do mundo o desenvolvimento da agricultura, e, por consequência, o sedentarismo.

Tal vida sedentária certamente criou as condições ecológicas para o aumento da prevalência de doenças parasitárias, mas a susceptibilidade das pessoas foi, em parte, decorrente da dieta mais pobre oriunda da agricultura. A baixa diversidade de plantas cultivadas também contribuía para fragilização da saúde dos primeiros agricultores se comparados com caçadores-coletores. Jonathan Kennedy, no seu “Pathogenesis: a history of the world in eight plagues”, descreveu que povos aparentados numa dada região e tempo, se agricultores, apresentavam em seus ossos sinais claros de subnutrição, comparado com parentes caçadores coletores, sendo que os caçadores utilizavam até 10 vezes mais espécies de animais e plantas na sua dieta comparado com os agricultores. Tal, empobrecimento da dieta, em especial relacionado a certas plantas menos nutritivas que eram mais fáceis de serem cultivadas, seria também porta de entrada, ou melhor, facilitador, de infecções. No entanto, nem toda agricultura que levou ao sedentarismo foi, originariamente, agricultura de baixa diversidade. Esse sempre foi o cenário da domesticação em latitudes frias, em especial no Velho Mundo.

A agricultura de baixa diversidade não existiu nos trópicos, cuja agricultura de sobrevivência envolvia uma elevada diversidade de espécies de plantas e assim permanece até hoje. Desta forma, agricultores e caçadores-coletores tropicais sempre tiveram mais riqueza alimentar, o que potencialmente os tornavam muito próximos dos coletores, talvez passando por uma etapa de manejadores do tamanho de populações de plantas úteis, antes de se tornarem verdadeiros cultivadores. As práticas amazônicas de pequenas derrubadas, plantio, abandono e rotação, por nós entendido desde sempre, foi recentemente redescoberto pela BBC, que as apresentou para o território de Jaguares del Yuruparí, Amazônia Colombiana. As 30 comunidades indígenas desse território cultivam mais de 67 diferentes variedades de cassava (mandioca), e 104 espécies de diferentes de plantas comestíveis e medicinais. Tal prática pode ter iniciado pelo manejo e, por se tratar de agricultura de espécies nativas, o conceito de “domesticação” e “manejo” claramente se confundem aqui.

Aí quis saber se tínhamos registros similares para o Brasil, e deparei com o estudo da Cintia C e Silva e colegas da UFPA, para o grande território de Altamira, Xingu. Esses pesquisadores (Research, Society and Development, v. 13, n. 12, e56131247625, 2024 – DOI: http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v13i12.47625) encontraram entre quintais, roças e capoeiras geridas pelas comunidades indígenas 131 espécies de plantas cultivadas, pertencentes a 56 famílias botânicas. Ou seja, a tênue linha divisória entre caçadores-coletores e agricultores, que foi concebida cientificamente para entender padrões de deslocamento e adaptação de povos oriundos de savanas sazonais da África e primeiros assentamentos europeus, se desfaz nos trópicos sempre-úmidos.


Um trabalho superimportante, de Mikka Talavaara e colegas da Universidade de Helsinki, Finlândia, explorou esses diferentes cenários entre recursos e doenças para populações de caçadores-coletores do mundo todo. Os modelos analíticos desse paper na PNAS (Productivity, biodiversity, and pathogens influence the global hunter-gatherer population density – https://doi.org/10.1073/pnas.1715638115) apontam que as maiores densidades populacionais de caçadores-coletores estão nas mesmas localidades onde agricultura se estabeleceu precocemente, no final da primeira metade do Holoceno. Talavaara demonstrou que há um ótimo entre produtividade intermediária e baixo estresse causado por patógenos. Na verdade, o que define o padrão global de densidades populacionais humanas de caçadores-coletores é uma interação de fatores: em ecossistemas de baixa produtividade, o tamanho das populações humanas responde mais prontamente ao aumento da diversidade biológica entre os grupos estudados. Ou seja, se o recurso é escasso, melhor que seja diversificado, e essa relação permite aumento das populações humanas, sendo que nesses ecossistemas, o estresse causado por patógenos era irrelevante. Por outro lado, em ecossistemas de alta produtividade o estresse causado por patógenos não só era relevante, mas também aumentava significativamente com o tamanho das populações humanas, comparando os grupos estudados. Nesses cenários de alta produtividade e alto estresse patogênico, a diversidade de espécies comestíveis não tem efeito algum no tamanho das populações humanas.

Em resumo, nós respondemos melhor aos biomas de produtividade primária líquida intermediária: savanas e bosques subtropicais, onde as taxas fotossintéticas favorecem a coexistência de um grande número de espécies de plantas e animais, mas é incapaz de acumular uma riqueza muito grande de patógenos. Não estranhamente, esse é o habitat original onde nossa espécie surgiu! O que de fato me causa estranheza é que, dado o entendimento que temos desses fenômenos hoje em dia, e em especial da importância da diversidade biológica como um fator protetivo contra emergência de novas doenças e prevalência de antigas, ainda insistimos em um modelo agrícola empobrecedor e de alto impacto na biodiversidade!

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